quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 



 

NO ISOLAMENTO DA FLORESTA, UM CANTO PODEROSO REVELOU UMA NOVA ESPÉCIE

 

Na remota Serra do Divisor, a sururina-da-serra combina vocalização única, isolamento extremo e ameaças crescentes

 


A nova espécie (Tinamus resonans) ganhou o nome popular de sururina-da-serra. Foto: Luís

 

Parte inferior do formulário

Um canto incomum ouvido numa área montanhosa do Acre levou à identificação de uma nova espécie. Ela vive em faixa de ocorrência muito limitada, o que aumenta sua exposição a projetos de infraestrutura, mudanças na proteção do território e efeitos do aquecimento global.

No fim de uma tarde abafada de 2021, depois de oito horas de barco rio acima até o remoto Parque Nacional da Serra do Divisor, no oeste do Acre, o biólogo e ilustrador Fernando Igor de Godoy só queria dar uma “passarinhada” rápida antes de escurecer. Foi então que, em meio à floresta, um canto chamou sua atenção.

 

“Quando eu ouvi, falei na hora: isso não existe. Não parecia a variação de nada conhecido, era alguma coisa nova”, relatou.

O som longo, agudo e metálico ecoava pela serra, mas não lembrava nenhuma espécie conhecida. Godoy gravou ali mesmo o que se tornaria o primeiro registro da sururina-da-serra, hoje descrita por um time de cientistas como Tinamus resonans, a mais nova integrante da família dos inhambus.

No mundo das aves, novas espécies muitas vezes vêm do refinamento de populações já conhecidas, apartadas por análises genéticas. Não foi o caso. A sururina tem plumagem, comportamento e vocalização únicos entre os tinamídeos, grupo de animais como os macucos, perdizes e codornas.

 


Ilustração de Fernando Igor de Godoy com alguns membros da família Tinamidae: no topo a sururina-da-serra (Tinamus resonans), abaixo à esquerda um tururim (Crypturellus soui), à direta um inhambu-anhangá (Crypturellus variegatus) e mais abaixo um inhambu-carijó (Crypturellus brevirostris). A sururina adulta tem cerca de 30 cm de comprimento e peso próximo de 340 gramas.

Sua cabeça exibe uma máscara cinza-ardósia escura contrastando com peito castanho-avermelhado e o dorso pardo uniforme, compondo uma “vestimenta” não usada por nenhum de seus parentes.

O canto – com notas longas e potentes, em sequências que podem ultrapassar 45 segundos – foi a pista mais forte. Uma vocalização tão distinta acendeu um alerta de que ali havia algo fora do comum.

“Os inhambus já nascem sabendo cantar. Eles não aprendem com o ambiente. Por isso, quando você escuta uma vocalização tão diferente, o alerta acende na hora”, explicou Godoy.

A descoberta começou durante um trabalho de Godoy como ilustrador para um guia de aves da Serra do Divisor, financiado por instituições brasileiras e estadunidenses. No campo, comunidades locais ajudaram a selecionar as espécies da publicação. Foi nessa época que topou com o novo inhambu.

Nos meses seguintes, pesquisadores que ouviram o áudio levantaram dúvidas e sugeriram ser uma variação de espécies conhecidas. O biólogo Luís Morais foi o primeiro a defender a novidade. No ano passado, conseguiu fotografar e filmar a ave, cujo nome científico lembra a reverberação do canto na morraria.

“Muita gente achou que eu estava ‘viajando’. Disseram que era variação, híbrido, um bicho cantando estranho. Foram poucos os que levaram a sério no começo”, lembrou Godoy.

O inigualável canto é uma marca registrada da sururina-da-serra. Vídeo: Kenny Ueslei

 

Um mundo próprio

A sururina viveria apenas entre cerca de 310m e 435m de altitude, num mosaico de floresta úmida, solo raso e raízes expostas. Essa estreita faixa da Serra do Divisor abrigaria as estimadas 2.100 aves da espécie. Ainda não há registros dela fora dessa região. 

Tal isolamento – onde a caça é rara e grandes predadores são escassos – explicaria seu comportamento tranquilo e a fácil aproximação com as pessoas. “Mas, essa docilidade não é regra, depende muito da pressão de caça. Onde o acesso é difícil, os animais tendem a ser mais tranquilos”, explicou Godoy

O comportamento dócil e o isolamento renderam à espécie o apelido de “dodô brasileiro”, mas esse era um pombo das ilhas Maurício, de outra família de animais. Mesmo assim, o paralelo vale como um alerta de que aves mansas costumam desaparecer quando chegam as estradas, caçadores e animais domésticos.

 



Pesquisadores vasculhando a floresta da Serra do Divisor, no extremo oeste do Acre, próximo à fronteira com o Peru. Foto: Luís Morais

 

Rasgando o parque

Com 837,5 mil ha, o Parna da Serra do Divisor é uma das áreas mais intactas da Amazônia brasileira. Estimativas recentes indicam que quase toda sua cobertura florestal segue conservada, enquanto o entorno registra taxas de desmatamento bem maiores.

Ela abriga florestas com imponentes árvores, palmeiras, cipós, bambus, orquídeas e a singular vitória-régia. O ICMBio lista na área 1.233 espécies animais, como o macaco uacari, a onça-pintada, o quati, tartarugas, o boto-vermelho, o araçari-castanho e o peixe-boi.

Apesar desse patrimônio público, o parque enfrenta ameaças persistentes. Projetos de uma estrada e de uma ferrovia voltados à exportação de commodities por portos do Pacífico seguem vivos em órgãos públicos e nos congressos brasileiro e peruano.

Paralelamente, avançam propostas para rebaixar o parque à categoria de Área de Proteção Ambiental (APA), a categoria de unidade de conservação mais débil na legislação federal brasileira. A mudança abriria espaço para mineração, exploração madeireira e agropecuária.

O principal projeto rodoviário é a estrada binacional Cruzeiro do Sul (AC) – Pucallpa (Peru), na prática uma extensão da BR-364, cortando o Parna da Serra do Divisor e terras indígenas. Seu licenciamento ambiental federal está paralisado por decisões da Justiça Federal no Acre.

Para Francisco Piyãko, liderança do povo Ashaninka e nativo da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, os prejuízos socioambientais da obra superariam qualquer benefício. “É uma região extremamente sensível. Essa ligação não vai ajudar a região, vai só destruir”, afirma.

 



O sinuoso Rio Moa cortando a Serra do Divisor perto da fronteira Brasil – Peru. Foto: Pedro Devani / Secom/AC

Segundo ele, também coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), uma das principais ameaças é o avanço da criminalidade. A estrada conectaria o Acre a áreas peruanas já marcadas por exploração madeireira ilegal e plantios de coca.

“Você vê o narcotráfico se instalando, as facções circulando, porque virou uma fronteira internacional sem proteção”, descreveu.

Piyãko também questionou as promessas – sobretudo de políticos acreanos – de desenvolvimento econômico associado às obras. Como exemplo, ele citou a experiência ao longo da BR-364 – em obras desde os anos 1980 – onde a infraestrutura não teria melhorado a vida da coletividade.

“As cidades viraram só caminho. Cresceu a pobreza, gente sem ter onde morar, sem ter o que comer”, disse. “É muito mais discurso eleitoreiro, dizendo que vai tirar o estado do isolamento. O estado não está isolado, já existe uma ligação com o Pacífico, por Assis Brasil (AC) e Puerto Maldonado (Peru)”, disse.

 


O uacari-vermelho (Cacajao calvus rubicundus) é um dos impressionantes animais que habitam o Parna da Serra do Divisor. Foto: Eugenia Kononova / Creative Commons

 

Ameaça silenciosa 

Além das obras de infraestrutura e dos motosserras, a crise global do clima também pode afetar espécies vivendo em condições muito específicas, como a sururina-da-serra. Afinal, como ela já ocupa o terreno mais alto disponível, não teria como subir e fugir do aumento da temperatura. 

Incêndios florestais também são um perigo real e crescente pelas mudanças ambientais e degradação da Amazônia. Um único foco grande pode consumir boa parte do habitat da espécie, diante da sua ocorrência muito restrita.

“Se a Serra do Divisor vai bem, a sururina vai bem. Se o parque vira estrada, boi e fogo, não tem papel que resolva”, reforçou Godoy.

Ainda assim, a ave ainda não tem categoria oficial de ameaça. Os dados reunidos pelos cientistas serão avaliados numa oficina sobre aves amazônicas para propor um enquadramento – possivelmente como “espécie ameaçada”, dada a distribuição mínima e o risco climático.

Para Godoy, a descoberta também expõe o quanto a região permanece pouco conhecida. “Se uma ave dessa foi descrita agora, imagine a quantidade de animais, de plantas, de fungos, se tantos organismos para serem descritos”, projetou.

Diante disso, Piyãko afirmou que a Serra do Divisor devia ser reservada como uma fonte para o equilíbrio do planeta. “Muitas espécies hoje destacadas pela ciência são conhecidas há gerações pelos povos indígenas da região”, descreveu.

 


O Parna da Serra do Divisor é uma das áreas protegidas mais preservadas da Amazônia Brasileira. Foto: Pedro Benevides/Ascom Mâncio Lima

 

 

 

 

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TIRANDO ONDA: O PARA SURFE ABRE O MAR PARA A DIVERSIDADE

 

O surfe quebra barreiras e promove a inclusão de pessoas com deficiência. A experiência de se mover nas maritimidades está alavancando ferramentas de acessibilidade

 

Cadeira de rodas adaptada para

acesso à praia. Crédito: Vitória Borges

 

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A praia, no contexto brasileiro, evoca sentimentos de liberdade e prazer, pois está associada a um espaço lúdico, relaxante, sociável e de bem-estar. No entanto, para desfrutá-la plenamente, é preciso combater a normatização do “corpo de praia” – a ideia predominante acerca de qual corpo deve usufruir do ambiente da praia, do mar e ser beneficiado pelas políticas públicas. O acesso a esses ambientes ainda não é uma realidade para Pessoas com Deficiência (PcD), pois há barreiras físicas de acessibilidade universal e barreiras simbólicas que excluem e territorializam outras possibilidades de vivenciar a maritimidade. 

Estar sobre uma prancha, sustentado pela água e em diálogo constante com o imprevisível, reverte padrões, gerando autonomia real e vívida.  Essa experiência, quando acompanhada de acolhimento, orientação técnica e um ambiente seguro, transforma cada gesto em possibilidade de reconstrução.

 

O corpo, como a escritora Adrienne Rich nos lembra, é a nossa geografia mais íntima, é um espaço pessoal e um elo sensorial para as experiências no mundo. Ele carrega trajetórias das nossas vivências e as necessidades que buscamos satisfazer. No mar, o corpo do praticante se torna território de escuta, experimentação e transformação: a flutuação, a força da onda, o toque da água salgada e a interação com a paisagem aquática mobilizam sensações profundas, despertando confiança, entrega e presença. Nesse cenário, o contato com o mar surge como uma potente ferramenta que vai além da inclusão, estimulando uma conexão profunda com o próprio corpo, com a natureza e com o prazer de se satisfazer no mundo. 

A Praia de São Lourenço, em Bertioga (SP), recentemente foi palco de uma vivência de surfe adaptado em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Escola de Surf Riviera, para consolidar o potencial da cidade para o turismo inclusivo com infraestrutura adaptada.

 

Relatos sobre a vivência de surfe adaptado em Bertioga

 

“Experiência maravilhosa que tive a oportunidade de vivenciar. […] eu e minha filha, ela sempre gostou muito de água, curtiu bastante, nem queria sair da água […]”

 

“Passando para agradecer toda a equipe organizadora do evento, vocês são incríveis. […], proporcionando esse dia para os alunos da natação, um excelente treino de habilidades sociais. E mostrando que as pessoas com deficiências são pertencentes de todos lugares”

 

“Meu esposo, minha filha, meu filho estiveram, e voltaram pra casa transbordando alegria pela experiência que vivenciaram”.

 

“Meu esposo está perto de completar 40 anos, teve a oportunidade de conhecer o mar, ele tem muita dificuldade social e de interação, e se sentiu confortável em estar com vocês”.

 

Maritimidades

O mar e o ambiente aquático, como um todo, são investigações de vivência e representação. As percepções que podem ser notadas pelas pessoas na paisagem, como vento, areia, sol, sal, sabores e odores, são incorporadas nas suas relações. Isso porque, ao entrar em contato com a água, o corpo absorve minerais e outros componentes que provocam reações químicas e orgânicas nele, resultando em sensação de bem-estar. A estreita relação humana com corpos d’água, principalmente no mar, marca experiências de vida importantes para o desenvolvimento de habilidades sociais, técnicas e econômicas. Todas essas habilidades são intrínsecas ao que podemos chamar de maritimidade, ou seja, relações sociais diversas com o mar, seja para trabalho, lazer, espiritualidade, explorações econômicas, políticas e sociais. 

A apropriação do mar, no Brasil, por classes mais altas, é um processo importante para o entendimento dessas territorialidades que disputam o ambiente para satisfação de diversos desejos. Nesse processo, muitos povos locais são desapropriados dos seus espaços de vida. As progressões de disputa pelo ambiente litorâneo seguem o exemplo da Proposta de Emenda à Constituição (PEC nº 3 de 2022), conhecida como PEC das Praias, que sugere a privatização de regiões praieiras. A aplicação dessa proposta pode acentuar a exclusão social ao ambiente de praia, inviabilizando o amplo acesso ao ambiente marinho e degradando o ecossistema costeiro. 

Diante de tais conflitos, o acesso ao mar já é uma realidade restrita a poucos grupos de pessoas, além da ocupação dos espaços públicos e aquáticos por empresas e indústrias. Dada a instituição da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), a restrição do acesso de pessoas com deficiência ao mar é considerada inconstitucional, o que implica a imposição do Estado em garantir o acesso livre e inclusivo, bem como a ampliação da cultura oceânica para todas e todos, inserindo as comunidades nesses espaços.

 

Surfe adaptado

O surfe adaptado é uma modalidade que consiste em permitir a experiência de uma pessoa com deficiência na prancha. Em uma sociedade que impõe diferentes barreiras para tal grupo, o ato de surfar soa como um grito de liberdade, que permite o contato direto com o mar e diferentes sensações corporais, garantindo o direito ao lazer e ao esporte, conforme previsto pelo Artigo 42 da LBI. A prática, que promove o contato direto com o mar, é vista como um ato de autonomia e oferece diversos benefícios físicos, como a melhoria da coordenação e equilíbrio, além de vantagens emocionais e sociais, como o aumento da autoestima e a redução da ansiedade.

Além das pessoas com deficiência, o surfe adaptado também pode ser utilizado como ferramenta terapêutica para outros grupos, como idosos ou pessoas com depressão. Para que a prática seja viável, é necessário o apoio de projetos que forneçam a estrutura necessária e equipes qualificadas, profissionais da educação, saúde e voluntárias e voluntários. As adaptações incluem esteiras de acesso, cadeiras de rodas especiais e diferentes tipos de pranchas e flutuadores.


Pessoa com deficiência sobre uma

prancha no mar. Crédito: Vitória Borges

 

No Brasil, o projeto Adaptsurf foi pioneiro, sendo inaugurado no Rio de Janeiro, em 2007. Depois, outros projetos foram sendo criados, promovendo o acesso da PcD ao surfe adaptado, tanto no contexto de lazer e reabilitação, como no âmbito competitivo. Por mais que enfrente as barreiras da sociedade, o surfe adaptado é bem estruturado e possui muitos praticantes no Brasil e no mundo. No último campeonato mundial de para surfe, houve a participação de 25 países, contemplando todos os continentes, dado que demonstra que a prática do surfe adaptado já faz parte de diferentes culturas e ainda tem muito potencial de crescimento.

 

Para surfe

O para surfe é a modalidade competitiva do surfe adaptado, com atletas divididos em 9 classes funcionais. Apesar de ter uma estrutura de alto rendimento, com campeonatos mundiais promovidos pela Associação Internacional de Surfe (ISA, na sigla em inglês), o para surfe ainda não faz parte dos Jogos Paralímpicos, mas há uma mobilização para sua inclusão a partir de 2032. O acesso ao para surfe se restringe às pessoas com deficiência que são enquadradas nas classes funcionais, sendo toda a conjuntura do esporte competitivo alocada apenas para quem faz parte desse recorte. Entretanto, mesmo não dando acesso ao campeonato mundial, a Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) promove baterias destinadas a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), deficiência auditiva e deficiências intelectuais.

Em agosto de 2024, foi aprovado um programa pelo Ministério do Esporte denominado Maré Inclusiva, que oferecerá a prática do surfe adaptado e para surfe, objetivando a melhora da qualidade de vida, autonomia e inclusão na sociedade como um todo. O programa garante 50% das vagas para meninas e mulheres e tem como meta promover, apoiar e fomentar a criação de núcleos de atendimento gratuitos voltados ao para surfe, possibilitando, assim, o impulsionamento da modalidade. O Brasil é bicampeão mundial por equipes e possui um vasto histórico de medalhas individuais em campeonatos da ISA. Foram conquistadas 57 medalhas individuais, sendo 24 de ouro, 17 de prata, 9 de bronze e 7 de cobre, nos últimos 10 anos.

Diferença entre Surfe Adaptado e Para surfe 

Surfe Adaptado: Prática realizada por qualquer pessoa com deficiência física, intelectual, visual, auditiva ou com transtorno do neurodesenvolvimento, sem nenhum tipo de restrição na participação. Com foco terapêutico e de lazer, é permitido diferentes adaptações e suporte de monitores. 
Para surfe: Utiliza a mesma estrutura do Surfe Adaptado, porém, com foco competitivo. Nas competições oficiais, participam apenas os atletas que são elegíveis nas 9 classes funcionais (7 para deficiência física e 2 para deficiência visual). Em tais campeonatos, é onde se concretiza todo processo de treinamento para as demonstrações das habilidades do Para surfe, tendo como critérios de avaliação a técnica, grau de dificuldade, combinação de manobras, variedade, velocidade, força e fluidez. Há suporte de monitores apenas para alguns casos em que é necessário por segurança.

No Brasil, há um destaque de melhores praias para o para surfe: praia da Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, conhecida pelo projeto Praia Para Todos, que oferece infraestrutura completa de acessibilidade, incluindo cadeiras anfíbias e esteiras na areia, além de apoio de voluntárias e voluntários para a prática do surfe adaptado. A praia do Gonzaga, em Santos (SP) é pioneira, pois abriga a primeira escola pública de surfe adaptado do mundo; a infraestrutura da orla da cidade, com foco em acessibilidade universal, torna a experiência ainda mais completa. Além disso, a cidade de Guarujá (SP) também conta com projetos como o Surf Special, na Praia das Astúrias. Além disso, há uma série de locais na costa brasileira, de norte à sul, em que se encontra pessoas com deficiência praticando a modalidade em questão e demonstrando suas potencialidades e habilidades dentro do surfe. 

Em maio de 2025, foi realizado um projeto de surfe adaptado que levou alunas e alunos da extensão de natação paralímpica da Faculdade de Educação Física da Unicamp para surfar na praia de São Lourenço de Bertioga, no litoral paulista. Na ocasião foi possível vivenciar uma série de sensações que fortaleceram os vínculos entre os participantes, além de proporcionar o surfe para as pessoas com deficiência do projeto de extensão. A experiência contribuiu no acesso ao surfe adaptado, trouxe novas perspectivas e obteve depoimentos de realização e satisfação dos envolvidos. 

 

Participante da atividade promovida pela

Unicamp. Bertioga (SP). Crédito: Vitória Borges

 

Os esportes e exercícios marinhos são de extrema importância para o desenvolvimento físico e o bem-estar das pessoas. A participação de pessoas com deficiência, idosos e pessoas com mobilidade reduzida potencializam o avanço das leis e tecnologias de acessibilidade, cada vez mais necessárias, e mostram que o mar é um espaço para todas as pessoas, resultando em movimentos de valorização de atividades corporais, educação social sobre o cuidado e a preservação do ambiente oceânico, gerando consciência coletiva quanto ao acesso adaptado e institucional das pessoas em cada lugar. 

 

Vale a pena ler

Para surf brasileiro faz cinco campeões mundiais na Califórnia com apoio do Ministério do Esporte

Para surf é potência: Ingrid Medina é a primeira brasileira com deficiência visual a ir em mundial

(Des)localizações: geografias do corpo na poesia de Adrienne Rich

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o)) eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

 

 

 

 

 

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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

 



 

DIA DAS ABELHAS

 CIÊNCIA, CULTURA E AÇÃO — COMO TRANSFORMAR CIDADES, FAZENDAS E ESCOLAS EM SANTUÁRIOS DE POLINIZAÇÃO

 



Soluções reais, experiências brasileiras e inovações para proteger quem sustenta a vida.

Abelhas não apenas polinizam plantas; elas costuram economias locais, inspiram culturas e dão ritmo a paisagens inteiras. Hoje, no Dia das Abelhas, o convite é outro: além de celebrar, precisamos ir além do alerta e assumir um plano de ação, do jardim da escola ao planejamento urbano, do sítio familiar à cadeia de suprimentos.

Este artigo complementa o nosso conteúdo “A Crise dos Polinizadores” com um olhar inédito para soluções de campo, ferramentas tecnológicas, experiências brasileiras e caminhos de engajamento comunitário. Prepare-se para transformar conhecimento em atitude — com passos simples, cases de impacto e referências confiáveis.

Se o futuro da alimentação e da biodiversidade passa pelas abelhas, que tal fazer do lugar onde você vive o próximo refúgio de polinização?

 

“Proteger abelhas é uma escolha diária: plante nativas, reduza agrotóxicos, crie corredores verdes e multiplique o conhecimento — onde você vive, estuda e trabalha.”

 



Abelhas nativas em ação: pequenas guardiãs da polinização.

 

1) Guardiãs da vida: o valor ecológico, econômico e cultural das abelhas

As abelhas sustentam a diversidade de alimentos, melhoram a qualidade dos frutos e mantêm o equilíbrio de ecossistemas complexos. Porém, o que muitas vezes passa despercebido é seu impacto econômico direto na renda de agricultores, na saúde dos “quintais produtivos” e na vitalidade do comércio local. Em diferentes culturas, as abelhas simbolizam trabalho coletivo, organização e interdependência — lições poderosas para cidades que querem ser mais verdes e resilientes.

Ao reconhecer esse valor múltiplo, governos, empresas e comunidades ampliam o foco: de apenas “produzir mais” para “produzir melhor”, conectando segurança alimentar e biodiversidade. No Brasil, onde a agricultura é estratégica, esse passo é decisivo.

 

2) Experiências brasileiras que funcionam (e podem inspirar a sua cidade)

Apicultura comunitária e abelhas nativas sem ferrão: projetos em escolas, parques e propriedades rurais têm elevado a polinização e a renda local. As abelhas sem ferrão (como jataí, mandaçaia e uruçu) são excelentes para ambientes urbanos e atividades educativas.

Sistemas agroflorestais (SAF’s): diversificação de espécies floríferas ao longo do ano reduz “desertos alimentares” para polinizadores. Veja, para complementar, o artigo do Blog sobre técnicas de produção sustentável — a integração produtiva com conservação é um caminho consistente.

Infraestrutura verde urbana: corredores ecológicos, telhados e paredes verdes aumentam a oferta de néctar e pólen em cidades. Aprofunde em infraestrutura verde urbana, com benefícios que incluem conforto térmico e bem-estar nas áreas densas.

 

Valorização da sociobiodiversidade: incluir PANC’s (Plantas Alimentícias Não Convencionais) em hortas e cardápios estimula floradas diversas e fortalece cadeias curtas de abastecimento.

Quando esses elementos atuam juntos — educação, paisagismo funcional, manejo ecológico e cadeia de valor — as abelhas encontram abrigo, alimento e estabilidade. E a cidade ganha em resiliência climática e qualidade de vida.

 



Abelhas: elo vivo entre flores, alimento e ecossistemas.

 

3) Inovação a serviço das abelhas: do sensor ao satélite

Se abelhas sofrem com agrotóxicos, doenças e falta de alimento, a tecnologia pode ser aliada: sensores em colmeias monitoram temperatura e umidade, aplicativos ajudam apicultores a rastrear floradas e alertas climáticos orientam manejos mais seguros. Imagens de satélite e drones apoiam mapeamento de corredores polinizadores, enquanto bancos de sementes e viveiros conectados via plataformas digitais aceleram a restauração de paisagens.

Para produtores, cooperativas e escolas técnicas, é hora de somar agrotech e nature-based solutions. O resultado? Menos perdas, mais produtividade e cadeias de suprimentos com indicadores verificáveis de conservação — algo cada vez mais exigido por compradores e mercados internacionais.

 

4) O prato do dia depende delas: sistemas alimentares e diversificação

A proteção de abelhas é um dos pilares de sistemas alimentares capazes de garantir oferta, preço justo e nutrição. Isso passa por diversificar cultivos, reduzir o uso de pesticidas e ampliar áreas de vegetação nativa. Para complementar, vale ler “A importância dos sistemas alimentares sustentáveis”, que aponta caminhos práticos para integrar produção e conservação.

Quanto mais amplo e escalonado o calendário de floradas — na fazenda, no bairro e na cidade — maior a estabilidade alimentar das colônias e melhor a qualidade dos frutos. Essa lógica é simples, mas transformadora.

 



Colmeia em movimento: cooperação das abelhas no equilíbrio natural.

 

5) Cidades que florescem: jardins, telhados e escolas polinizadoras

Política urbana amiga das abelhas começa no básico: paisagismo com nativas (ex.: cambará, manjericão, ipês, quaresmeira), telhados verdes, canteiros conectados e praças com manejo ecológico. Evitar “gramadões estéreis” e priorizar plantas melíferas é uma das formas mais rápidas de aumentar o alimento disponível.

Em escolas, museus e parques, projetos de educação ambiental com caixas de abelhas sem ferrão, hortas e trilhas de polinização transformam crianças e educadores em agentes da mudança. O Blog Ambiental já detalhou caminhos em “Como criar material didático para educação ambiental”. Além disso, práticas de redução de resíduos e compostagem fortalecem solos e jardins, ampliando o ciclo virtuoso.

 

6) Manejo responsável e políticas que fazem diferença

Do ponto de vista do manejo, reduzir a exposição a agrotóxicos (especialmente os de alta toxicidade para polinizadores) é inegociável. Alternativas como controle biológico, bioinsumos e manejo integrado de pragas vêm se consolidando. Em paralelo, municípios podem adotar planos polinizadores com metas para corredores ecológicos, compra pública sustentável de mudas nativas e regras de poda mais inteligentes (evitando períodos de floração).

No campo das políticas, integrar agricultura, urbanismo, educação e saúde cria governança robusta. Corredores de polinização, viveiros municipais e redes de hortas urbanas conectadas são exemplos de ações que multiplicam resultados com baixo custo relativo.

 



O encontro perfeito entre flor e abelha: a polinização em ação.

 

7) Abelhas na história humana: símbolos de cooperação e inteligência coletiva

De povos indígenas a tradições mediterrâneas, as abelhas aparecem como mensageiras de prosperidade e harmonia. Na prática, colmeias são organizações complexas, com divisão de tarefas, comunicação química e tomada de decisão distribuída — metáforas poderosas para redes colaborativas, clusters regionais e estratégias de desenvolvimento sustentável. O recado é claro: ninguém poliniza sozinho.

 

8) Pausa estratégica: e se a sua rua virasse um corredor de polinização?

Agora é com você. Reúna vizinhos para adotar canteiros, incentive a escola do bairro a montar um jardim de abelhas sem ferrão, provoque a prefeitura sobre telhados verdes em prédios públicos e leve este tema para o conselho municipal de meio ambiente. Escolha uma ação hoje e compartilhe os resultados: cada metro de flores, cada muda nativa plantada, cada “aula viva” faz diferença.

 

Conclusão: do louvor ao movimento

Celebrar o Dia das Abelhas é importante. Mas fazer dele um marco de planejamento e mobilização coletiva é essencial. Unindo soluções tecnológicas, manejo responsável, educação ambiental e desenho urbano biofílico, criamos um mosaico de oportunidades para abelhas e pessoas.

O resultado esperado? Cidades mais frescas, campos mais produtivos, pratos mais nutritivos e ecossistemas mais equilibrados. Proteger abelhas é, em última instância, proteger a nós mesmos.

 

 

 

 

 

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DIA MUNDIAL DA NATUREZA: O VALOR INTRÍNSECO DE UM RIO

 


Uma reflexão sobre rios, equilíbrio ecológico e a essência do planeta vivo: Vamos Celebrar a Vida que Flui

No Dia Mundial da Natureza, convidamos à contemplação de algo que vai além das paisagens exuberantes e dos recursos naturais que sustentam nossa existência. A data simboliza o reconhecimento da vida em todas as suas formas — da montanha ao mangue, da floresta ao rio — e nos lembra de que a Terra não é apenas o nosso lar, mas um organismo vivo e interconectado. Cada rio, nascente e gota d’água carrega em si o mesmo pulso que mantém o planeta em movimento.

Entre os elementos que melhor expressam essa interdependência está o rio: linha de vida que atravessa territórios, civilizações e culturas, unindo o humano ao natural. Por isso, nesta data especial, o Blog Ambiental celebra a natureza através da reflexão profunda proposta por Afonso Peche Filho, que nos convida a olhar para os rios não como recursos, mas como seres de valor próprio — fontes de equilíbrio, memória e espiritualidade.

 

“Reconhecer o valor intrínseco de um rio é redescobrir o elo entre o humano e a natureza — um gesto de reverência à vida em sua totalidade. ”

 

O valor intrínseco de um rio é um conceito essencial para repensarmos o papel da natureza na formulação de políticas públicas. Em tempos de mudanças climáticas, escassez hídrica e crescente urbanização, gestores públicos e ambientais precisam enxergar os cursos d’água não apenas como recursos utilitários, mas também como entidades com importância própria — ecológica, cultural e espiritual. Portanto, compreender essa perspectiva é fundamental para estratégias mais sustentáveis e eficazes de conservação.

 

Compreendendo o Valor Intrínseco de um Rio

Quando falamos em valor intrínseco, nos referimos à importância que um rio possui independentemente de seu uso econômico, funcional ou recreativo. Ele é valioso por existir, pois integra o ecossistema, sustenta formas de vida, conecta paisagens e culturas e carrega significados simbólicos profundos. Assim, a mera presença de um rio, fluindo livremente em seu leito natural, já representa um patrimônio ecológico e civilizacional.

Reconhecer o valor intrínseco de um rio é entender que sua preservação vai além da utilidade; é um compromisso ético com a vida e com o futuro da humanidade.

Enquanto a visão tradicional enxerga o rio como um bem a ser explorado, o valor intrínseco propõe uma mudança radical. Ou seja, em vez de justificar sua preservação apenas pela utilidade, ele deve ser protegido pelo que é. Dessa forma, gestores encontram uma base ética e técnica para políticas ambientais mais resilientes.

 

Rios como Ecossistemas Vivos e Conectores de Vida

 



Do ponto de vista ecológico, rios e riachos funcionam como corredores ecológicos, possibilitando a migração de espécies, mantendo a biodiversidade e promovendo o equilíbrio dos habitats. Além disso, eles transportam água, sedimentos, nutrientes e energia, sustentando não apenas espécies aquáticas, mas também aves, mamíferos e comunidades humanas.

Por isso, preservar esse fluxo natural é essencial para controlar enchentes, purificar a água e manter o microclima. Consequentemente, gestores devem priorizar a manutenção da vazão ecológica, evitando represamentos desnecessários e incentivando a recuperação de matas ciliares e nascentes.

 

Rios como Patrimônios Culturais e Simbólicos

Além de sua função ecológica, muitos cursos d’água possuem valor simbólico profundo. Comunidades tradicionais, povos indígenas e grupos locais frequentemente consideram os rios como sagrados — fontes de vida, sabedoria e renovação. Nesse sentido, o rio é parte da identidade cultural, presente em rituais, histórias orais e práticas cotidianas.

Assim sendo, ao reconhecer esse valor, o gestor amplia sua visão estratégica, conectando políticas ambientais à valorização da identidade cultural e à promoção da justiça socioambiental. Em outras palavras, proteger um rio é também proteger memórias coletivas e modos de vida.

 



Beleza, Inspiração e Espiritualidade: o Valor Estético do Rio

Rios não são apenas infraestruturas hídricas. Eles também são paisagens dinâmicas, fontes de inspiração para a arte, literatura, música e espiritualidade. De fato, quem nunca parou para contemplar a beleza de um rio ao entardecer? Esse aspecto estético e emocional aproxima as pessoas da natureza, despertando senso de pertencimento e responsabilidade.

Portanto, para os gestores, é importante integrar os rios aos espaços urbanos de forma harmoniosa. Isso pode ser feito com parques lineares, acessos públicos e programas de educação ambiental que promovam o contato direto com os cursos d’água.

 

Ações Estratégicas para a Preservação

Reconhecer o valor intrínseco de um rio implica um compromisso ético e técnico com sua preservação. Logo, não se trata apenas de utilidade, mas de proteção ativa. Entre as ações necessárias, destacam-se:

Manter a vazão ecológica: respeitar o fluxo natural é essencial para a saúde do ecossistema.

Proteger as margens: restaurar e conservar a vegetação nativa nas áreas ripárias.

Controlar fontes de poluição: implementar saneamento, fiscalização e educação ambiental.

Evitar intervenções destrutivas: limitar represamentos, canalizações e dragagens.

Assim, essas medidas deixam de ser apenas ambientais e passam a ser estratégicas. Um rio saudável reduz riscos de desastres, melhora a qualidade de vida urbana, valoriza o território e fortalece vínculos comunitários.

 

O Valor Intrínseco como Fundamento para Políticas Públicas

Integrar o valor intrínseco nas políticas públicas pode parecer abstrato à primeira vista. No entanto, ele se traduz em decisões muito concretas. Entre elas, é possível citar:

·       Inclusão de critérios de valor ecológico e simbólico nos licenciamentos ambientais;

·       Criação de zonas de proteção permanente considerando valor paisagístico e cultural;

·       Estímulo a programas de pagamento por serviços ecossistêmicos;

·       Garantia de participação social, sobretudo de comunidades ribeirinhas.

Portanto, adotar essa visão significa transformar o modo como planejamos o futuro das cidades e do meio ambiente.

 

Um Novo Olhar: Educação e Consciência Pública

Promover a ideia do valor intrínseco exige mudança de mentalidade. Dessa forma, a educação ambiental torna-se essencial. Projetos escolares, campanhas de mídia e ações comunitárias que envolvam os rios ajudam a cultivar uma cultura de respeito e cuidado.

Para os gestores, isso significa incluir o conceito em discursos institucionais, materiais educativos e políticas de engajamento social. Assim, cidadãos informados e sensibilizados estarão mais dispostos a defender os rios.

 

Conclusão: Cuidar do Rio é Cuidar de Todos Nós

O valor intrínseco de um rio transcende sua utilidade imediata. Ele está presente em sua função ecológica, em seu papel cultural, em sua beleza natural e no vínculo afetivo que desperta nas pessoas. Portanto, ao adotar essa visão, gestores públicos e ambientais não apenas protegem um recurso natural, mas também promovem uma nova relação entre sociedade e natureza.

Rios são mais do que caminhos de água. Em última análise, são caminhos de vida, de memória e de conexão. E protegê-los é, inevitavelmente, proteger a nós mesmos.

 

 

 

 

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