#ESSELIVROÉOBICHO
Poucos são os livros informativos que apresentam às crianças – com arte,
ciência e estética – a diversidade da #faunabrasileira
Diagrama Pantanal, da coleção Manual dos Bichos, de Manu Alves e Rafa
Mayer: “Internamente [em cada livro] há uma ilustração de uma paisagem que
representa o bioma, onde localizamos todos os animais presentes no livro. Essa
arte funciona como uma espécie de brincadeira interativa, instigando o pequeno
a identificar onde cada bicho está”.
Médico veterinário, doutor em Desenvolvimento Sustentável, divulgador e
explicador vinculado ao Laboratório de Informação para a Sustentabilidade do
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – Ibict →
Em 1974, eu precisei passar por uma cirurgia de emergência: apêndice
supurado, peritonite aguda e toxemia. Aos cinco anos, eu me orgulhava – não de
ter sobrevivido – de ser capaz de repetir para muitos curiosos o diagnóstico
quase funesto, e mostrar o corte suturado com 52 pontos no abdômen infantil. Em
casa, deixado o hospital, ao lado da minha cama – transferida do quarto que eu
dividia com meus dois irmãos mais velhos para o da minha mãe –, encaixada entre
ela e a mesa de cabeceira, uma sacola cheia de livros de histórias
protagonizadas por animais.
Cresci acompanhado dos HQs da Disney – porque os personagens eram
animais – e escutando histórias gravadas em LP’s coloridos que giravam na
pequena vitrola enquanto eu folheava as revistinhas que os acompanhavam mesmo
sem saber ler. Na mesma vitrola, minha mãe colocava uma agulha especial e
selecionava a “rotação 78” (rpm) para os frágeis discos de goma-laca – um polímero
natural que precedeu o vinil, e que tornava os discos pesados e quebradiços –
com gravações de orquestras e cantores eruditos. Eu ainda os tenho, os discos –
que não quebraram – e a vitrola vermelha – que funciona a pilha ou à
eletricidade –, substituta da primeira, branca, à pilha. Na minha casa havia LP’s,
violões, um piano Pleyel do século XIX, muitos livros e
coleções, como os Clássicos da Editora Abril, capas vermelhas
tipografadas em dourado, a obra de Érico Veríssimo, em capas azuis
também tipografadas em dourado, uma coleção de Dostoiévski, outra
dos Irmãos Grimm, os cinco pesados volumes do Dicionário Caldas Aulete que
cedo aprendi a consultar. Havia uma segunda coleção da Editora Abril – cujas
capas também eram vermelhas –, com dois volumes dedicados a histórias da
Disney, praticamente desmantelados de tanto serem folheados.
Na casa da Vozinha – avó materna –, onde eu gostava de
estar porque tinha quintal e cachorro, uma prateleira fixada na parede de um
dos quartos guardava A porquinha do rabinho enrolado, de Teresinha
Casasanta, publicado pela Editora do Brasil em 1968, cujas ilustrações foram
coloridas a lápis. Não sei dizer quantas vezes o folheei. Agora, ele descansa
na minha estante, ao lado de os colegas, de Lygia Bojunga, publicado
pela Editora José Olympio em 1972, outra obra que marcou a minha infância de
leitor.
“E a gente canta » E a gente dança » E a gente não se cansa » De ser
criança » A gente brinca » Na nossa velha infância” (Velha infância, do CD
Tribalistas)
Eu gostava dos livros – talvez por crescer rodeado deles –, revistas e
produções televisivas e cinematográficas “de bichos”, com bichos, sobre bichos.
Muitas “memórias da divulgação científica”… Na TV – na “televisão” preto e
branco, que tinha um tipo de acrílico azul sobre a tela para criar a ilusão de
uma imagem colorida, substituída por uma colorida na qual os canais eram
selecionados em teclas ao invés do grande botão giratório que fazia um clique a
cada canal selecionado –, O mundo animal apresentado por Bill
Burrud – exibido nas manhãs da segunda metade da década de 1970 pela Rede Globo
–, Daktari, Tarzan, As aventuras de Daniel
Boone, Flipper, A turma do Zé Colméia –
paródia ao comportamento dos ursos do Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA
–, A História de Elsa (Born free) – 13 episódios
baseados no livro (1960) e no filme homônimos (1966), que contam a saga da leoa
que permaneceu sob os cuidados do casal Adamson no Parque Nacional de Meru, no
Quênia (uma das primeiras experiências de reabilitação da história da conservação)
–, os documentários do celebrado inglês David Attenborough, reunidos nas 18
“fitas de VHS” da coleção Os Desafios da Vida, lançada pela
Abril Coleções entre 1996-97, em parceria com a Time Life.
Na estante, os dez volumes de Fauna, os seis de O
mundo submarino (de Jacques-Yves Cousteau) – editora Salvat –, os seis
volumes de Vida Selvagem – editora Nova Cultural – foram
encadernados a partir dos fascículos comprados sempre na mesma banca de jornal
a três quadras da minha casa –, os livros de Eurico Santos, o divulgador esquecido – que eu tinha
preguiça de ler – e o álbum Animais de Todo o Mundo, para colar os
20 cartões colecionáveis encontrados dentro das embalagens das barras de
chocolate Surpresa, com a imagem de um animal selvagem e
informações como nome popular, nome científico, família, habitat,
alimentação, reprodução e particularidades. Sem falar de outras encadernações –
por exemplo, Conhecer Universal (Abril, 1982), Selos
de Todo o Mundo (Nova Cultural, 1986), Patrimônio Mundial (Nova
Cultural, 1987), revistas Globo Rural, Ciência Hoje e Superinteressante –
e outra leituras marcantes – por exemplo, Brasil: nunca mais (1985), Perestroika:
novas ideias para o meu país e o mundo (1988), A história da
riqueza dos homens (1936), As veias abertas da América Latina (1971)
e Genocídio americano: a guerra do Paraguai (1979).
Na primeira fileira, o divulgador da vida selvagem e influenciador Bill
Burrud (1925-1990). Na segunda, o influenciado, autor desta coluna.
Dando um salto de canguru no tempo, ou melhor, de suçuarana – para
privilegiar a #faunabrasileira –, em 2011, já servidor público, “caí de
paraquedas” em “mares nunca dantes navegados”. Eu me envolvi na revisão de uma
cartilha sobre sustentabilidade, para crianças, da qual saltei para ter com o
“pai da Turma da Mônica”, editar um livro, editar um segundo livro, e dar outro salto – um reverso de
4,5 mortais na posição estendida – para o mundo imaginativo da literatura
infantil, ou “literatura para as infâncias”, expressão, segundo o Gemini,
preferida por especialistas em educação que adotam uma visão mais progressista
e socioconstrutivista da criança e da educação, reconhecendo que não existe uma
infância única e ideal, mas múltiplas infâncias, vividas de maneiras
diferentes a depender do contexto social, cultural, econômico e geográfico de
cada criança; a literatura, nesse contexto, deve ser diversa e inclusiva,
respeitando essas diferentes realidades. Perdoem-me os “universitários”, mas eu
prefiro o “infantil” de Caldas Aulete, referente ou
inerente à infância ou à criança;
próprio para crianças.
Comecei a farejar pelas livrarias e sebos procurando #livrodebicho da
#faunabrasileira, porque livro com espécies exóticas – aquelas que não têm a
sua distribuição natural compreendida dentro do território nacional e nas águas
jurisdicionais brasileiras –, esses existem de montão. Um rápido exercício de
busca na seção de livros infantis em português, de uma livraria virtual tão
grande como a floresta Amazônica – antes do desmatamento e das queimadas –, vai
resultar em 192 livros protagonizados por ursos, 191 por coelhos, 126 por
leões, 89 por elefantes, 87 por borboletas, 81 por lobos (maus e bons), 70 por
macacos, 62 por girafas, 57 por jacarés, 51 por tigres, 49 por baleias, 47 por
tubarões, 45 por pandas-gigantes, 30 por papagaios, 29 por tatus, 25 por golfinhos,
16 por focas, 13 por onças, 13 por tucanos, etc. etc. A despeito da
inquestionável imprecisão da busca, ela se presta para revelar a abundância de
livros cujos protagonistas são espécies da fauna exótica em detrimento à fauna
brasileira que, por acaso, é a mais diversa do planeta.
As editoras poderiam demonstrar pela fauna nacional o mesmo interesse
comercial direcionado à fauna exógena, com os mesmos atrativos estéticos e
precisão biológica – obrigatória nos livros informativos e desejável, na medida
do possível, nos de ficção –, com frequência negligenciada. Penso ser um bom
momento desta coluna para destacar pedrinhas brilhantes que ficaram na bateia.
Em Animais da nossa terra (2003), “pela primeira vez um livro
infantil traz informações precisas sobre animais dos diversos ecossistemas
brasileiros. Ricamente ilustrado com esculturas de papel, a obra revela a
beleza e o encantamento da nossa fauna. Uma leitura informativa e prazerosa
para alunos e professores”. Em Brasil 100 palavras (2014),
bichos e plantas de cada bioma são representados por caricaturas coloridas
acompanhadas de curiosidades. Um livrão informativo que não pode faltar na
estante da criançada.
Paulo Vanzolini (1924-2013), que se notabilizou como zoólogo, mas também
como sambista, apresenta sua paixão pelos bichos brasileiros em 80 verbetes
acompanhados de ilustrações expressivas que atraem cientistas e crianças
em Terra Papagalorum (2019). E por falar em samba, Bichos
de cá (2020) apresenta a fauna brasileira acompanhada de canções com
ritmos regionais. No Youtube, é possível escutar todas as músicas
do livro, gravadas pelo grupo Nhambuzim. Bicho que chama bicho (2025)
– de Mateus Rios, um craque da retratação da fauna brasileira – é um dos livros
mais incríveis e surpreendentes que tive a alegria de ler. E no Livro
vermelho das crianças (2015), informações sobre a conservação da
fauna, histórias e curiosidades sobre 50 espécies ameaçadas de extinção no
Brasil. A obra tem mais de 60 mil downloads – então não é só um jabá.
Pedrinhas
brilhantes que ficaram na bateia.
Em 2020, a consternação tomou conta do casal Manu Alves e Rafa Mayer
frente às queimadas no Pantanal, quando cerca de 25%
do bioma foi consumido pelo fogo. Artistas plásticos especializados em pintura
e papéis de parede para decoração de ambientes para crianças – inconformados
com produtos e imagem de florestas que misturavam “um leão, uma girafa, um urso-panda
e um bicho-preguiça” por conta das infindáveis referências, sobretudo da fauna
africana, em livros, filmes e animações –, decidiram criar e
comercializar prints (reproduções de desenhos feitas em papel
especial) de animais do Pantanal, transferindo os ganhos com as vendas para
ONGs que estavam combatendo as queimadas: “Enquanto na Austrália as pessoas
faziam campanhas direcionadas para determinados animais, no Pantanal, os brasileiros nem sabiam o que
era um tuiuiú, ave símbolo do bioma”. Na plataforma de
financiamento coletivo Catarse, na qual o
projeto Manual dos Bichos foi divulgado, o casal relatou:
“Mais de 70% das pessoas que viram a nossa campanha não conheciam pelo menos
três dos nove animais que ilustramos. Foi assim que surgiu a ideia de criarmos
um livro unindo o nosso trabalho lúdico, com uma proposta educativa”. Esse
relato me fez lembrar de uma propaganda veiculada na TV, na década de 1990,
salvo engano da Fundação Biodiversitas, na qual crianças
eram convidadas a desenhar animais, como o leão, o elefante… e o
tamanduá-bandeira; “Tamanduá?”, indaga uma das crianças no final da peça.
Os seis
volumes – bonitos de ver e legais de ler – da coleção Manual do Bichos, de Manu
Alves e Rafa Mayer, publicados entre 2022 e 2025 por meio de “vaquinha
virtual”.
A coleção Manual dos Bichos é fruto do esforço do
talentoso casal de artistas que apostou na escassez e na demanda por livros
informativos sobre a #faunabrasileira. Em cada um dos seis volumes, 27 espécies
– número que simboliza quantos são os estados do Brasil, mais o Distrito
Federal – são apresentadas pelo nome comum, nome científico, minibiografia com
dados biológicos e curiosidades – textos curtos e bem-humorados que tornam a
leitura dinâmica –, e uma caricatura feita à mão, colorida com lápis de cor. Enriquecem
o projeto gráfico da obra coisas e símbolos que fazem referência aos nomes,
hábitos ou habitat dos bichos, criando conexões diretas ou
imaginárias – por exemplo, o urucum enfeitando a página do lobo-guará, pincéis
e paleta de madeira a da onça-pintada e um helicóptero a do morcego-beija-flor.
Além disso, cada volume apresenta o bioma por meio do mapa do Brasil
assinalando sua área de ocorrência e descrição das suas características
(vegetação, clima, relevância ecológica, etc.). O resultado? Leitura prazerosa,
quase uma brincadeira.
Como fazedor de livro, fiquei com inveja, inveja boa que alimenta a
coragem de quem tira da caixola e edita as próprias ideias, buscando apoio na
coletividade, que valoriza obras impressas e quer consumir livros informativos
que apresentem às crianças – com arte, ciência e estética – a diversidade da
#faunabrasileira. Que a coleção Manual dos Bichos seja
inspiração para que tenhamos mais e mais “livros de bicho”, de bichos
brasileiros.
Procura-se
livros informativos sobre a #faunabrasileira.
Histórias
e brincadeiras de bichos brasileiros.
A
onça-pintada: protagonista de mitos e lendas.
A caça
faz parte da cultura, ora para suprir necessidades, ora pelo prazer. Então, não
é estranho – e tampouco deveria ser motivo de “cancelamento” – que o escritor
Monteiro Lobato tenha descrito, como algo comum ou natural, o violento e cruel
encontro da turma do Sítio do Picapau Amarelo com a onça, narrado na obra «A
caçada da onça», publicada em 1924.
A
diversidade da fauna marinha em histórias ficcionais, versos e em obras
informativas, editadas por editoras tradicionais ou disponibilizadas
gratuitamente – geralmente em versão eletrônica – por instituições de pesquisa.
A
#faunabrasileira nas pinturas de Laurabeatriz, rimas e versos “biológicos” de
Lalau.
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