EQUILÍBRIO, HARMONIA E ESTABILIDADE PODEM TRANSFORMAR OS CUIDADOS COM
INCÊNDIOS EM GESTÃO DE FOGO
A longa travessia entre a teoria do manejo integrado e sua prática no
território brasileiro
Brigadistas do
PrevFogo em operação
para combater incêndios na
Amazônia. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama
A cada estiagem que passa, mais se elogia, critica, pesquisa e – que bom
–, se pratica o Manejo Integrado do Fogo, ou MIF. Isso não apenas no insólito
mundo dos profissionais da área da Biologia da Conservação. O MIF está sendo
evidenciado das ações de produtores rurais no interior do cerrado baiano às
conclamações políticas assinadas por dezenas de países na COP 30.
Segundo a Lei nº 14.944/2024, que institui a Política Nacional de Manejo
Integrado do Fogo, o “manejo integrado do fogo” é um modelo de planejamento e
gestão que integra aspectos ecológicos, culturais, socioeconômicos e técnicos.
Ele envolve a execução, a integração, o monitoramento, a avaliação e a
adaptação de ações relacionadas ao uso de queimas prescritas e controladas, bem
como à prevenção e ao combate aos incêndios florestais. Seu objetivo é reduzir
emissões de material particulado e gases de efeito estufa, conservar a
biodiversidade e diminuir a severidade dos incêndios florestais, respeitando o
uso tradicional e adaptativo do fogo.
Uma rápida análise do emprego da expressão Manejo Integrado do Fogo no
acervo de ((o))eco evidenciou que, desde 2017, cinquenta e nove matérias
(dentre reportagens, notícias e outras) discutiram diretamente ou utilizaram
indiretamente a expressão em seu conteúdo. O jornal cada vez mais tem
discursado em prol do MIF e, também de maneira ascendente, começou a aprimorar
a aplicação de termos que costumam gerar confusão em jornalistas, população e
mesmo técnicos da área ambiental, além de buscar cobrir mais aspectos da agenda
de MIF, como a restauração de ambientes
atingidos por incêndios e, por fim, valer-se do MIF como um tema
transversal a ocupar outras pautas.
Controlar o fogo para ele não escapar e combater o fogo que controla
Como algo novo (na verdade, não tão novo assim) observa-se que o Brasil
está a experienciar desde a primeira década dos anos 2000 uma espécie de
“letramento” em MIF. Portanto, naturalmente, tem quem pense que ele é sinônimo
de realizar queima planejada, tem quem pense que é integração de esforços para
prevenir e combater incêndios considerando o uso do fogo e tem quem ache que
nem vale a pena pensar o que pode vir a ser.
Sua popularidade e, pode-se afirmar, carisma atuais remetem à esperança
premente que nele tem sido depositada frente o imenso desafio global para lidar
com incêndios mais extensos, intensos e severos nos continentes livres de gelo.
Contudo, talvez o MIF pudesse significar mais do que isso, mais do que
reaprender a conviver com esse fogo a cada estiagem mais fugidio e que está
sapecando tudo, afinal de contas, se sua abordagem for aplicada de forma mais
integral e orientada para causas, por certo nos levará a refletir mais e,
assim, chegaremos à conclusão de que existe um outro fogo a ser combatido: o
fogo que não está na vegetação, mas preso em caldeiras e motores, queimando
combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás). Combater esse fogo fóssil
significa enfrentar grandes estruturas sociais e econômicas, como:
superconsumos, acumulação excessiva de riqueza, além de modelos sociais
centralizadores e concentradores de poder.
Como de costume, a Europa e a América do Norte, com seus sistemas
políticos e econômicos, legaram bastante opinião, regra e outras coisas mais
aos territórios que dominaram. Já no século XIX, países desses continentes e da
Oceania exportaram um paradigma
“incendiocêntrico” para lidar com fogo, ou seja, focado na supressão de
incêndios e, assim, gestão de emergências, marginalizando e até criminalizando
inumeráveis interações econômicas, ecológicas, culturais, de saúde e segurança
que nossa espécie desenvolveu ao longo do tempo em distintas geografias.
Paulatinamente, sobretudo a partir da década de 1950, manejadores e
pesquisadores começaram propor a mudança desse paradigma porque, dentre outras
sequelas: estava ocorrendo extinção de espécies em ecossistemas onde
naturalmente ocorrem regimes de fogo específicos; houve aumento de grandes
incêndios ocasionado pelo acúmulo de material combustível (vegetação) porque
era proibido usar o fogo e por conta de êxodo rural; o aumento das cidades
gerou o aumento de zonas periurbanas e, dessa maneira, maior exposição de
pessoas a incêndios, assim como maior risco de ignição; criminalizou-se
práticas indígenas e tradicionais de uso do fogo; quanto mais se investia com
foco em combate a incêndios, mais investimento era necessário.
O MIF mais parece um triângulo escaleno, só que o concebemos para ser
equilátero
Quem trabalha com fogo gosta demais de esquematizar e explicar conceitos
fazendo uso de figuras geométricas, notadamente os triângulos equiláteros, com
lados do mesmo tamanho. Tem o triângulo do fogo, o triângulo do comportamento
do fogo, o triângulo do manejo do fogo, o triângulo do manejo integrado do fogo
e estejam certos de que daqui a pouco alguém inventa outro, se é que já não
inventaram.
Não é fortuita a escolha de um triângulo com lados e ângulos de mesma
medida. Essa figura tem sido usada há milênios, estando seu simbolismo
bastante, mas não unicamente, associado a: i. equilíbrio e harmonia pois
a igualdade de seus lados e ângulos confere mesmo peso e importância aos
elementos que o compõem; ii. estabilidade porque sua base
larga dificilmente possibilita que ele tombe.
Também não é fortuito que na base do triângulo do MIF figure uma
ciência, a Ecologia do Fogo, assim como não seria fortuito afirmar que no
Brasil e em outros lugares do mundo triângulos escalenos, com lados com
tamanhos diferentes, figurem como a melhor representação geométrica da situação
de implementação do MIF, uma vez que a maior parte das instituições ainda atua
principalmente de forma restrita ao conceito de Manejo do Fogo e, ainda assim,
não plenamente, uma vez que organiza seus esforços para suprimir, prevenir
incêndios florestais e utilizar o fogo, nesta ordem decrescente de assiduidade.
Por que é difícil moldar o
trabalho para que ele seja equilibrado, harmonioso e estabilizado por
conhecimento científico? Por que necessidades socioeconômicas, integridade
cultural e ecológica ainda seguem exiladas no tempo futuro?
Suspeita-se que por uma mesma razão o triângulo do MIF ainda esteja
escaleno. Tanto quanto, se a restauração ecológica fosse representada por
triângulo, ele estaria escaleno, a sustentabilidade idem.
Implementação da política nacional de MIF para maximizar avanços na
conservação da sociobiodiversidade
Bem, de maneira gradual, às vezes mais vagarosa e tortuosa do que se
espera, experiências se moldam em ideias, que cunham definições, que figuram em
discussões, que encontram barreiras, que exigem negociações, que, se não
emperram, podem consumar políticas.
A política nacional de MIF publicada representou uma vitória
perseverante e proeminente de profissionais técnicos e políticos
bem-intencionados a favor do país. Sua implementação está se consumando como
uma oportunidade desafiadora de condução de processos para a redução de
assimetrias historicamente estabelecidas, recondução de governanças mais
participativas, além de reconhecimento da inegável, forte e inversamente
proporcional correlação que comunidades, sociedade civil organizada e
instituições públicas, quando atuando harmoniosamente, detêm em relação ao
risco de incêndios e à degradação de eco e agrossistemas.
Poderá tal eventual harmonia suscitar um meio ambiente mais equilibrado,
um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida? Incerto.
Obtusos são os não poucos interesses que ainda ditam como funciona nossa
economia, nossa política, nossa educação e cultura. E enquanto prevalecerem,
destacado será um ângulo obtuso em nosso triângulo.
Mas, porque o trabalho se constrói no dia a dia e é preciso dar passos
concretos, elencou-se despretensiosamente o que se acredita serem necessidades
tangíveis para o desenvolvimento do trabalho com MIF no Brasil ao longo dos
próximos anos (bem próximos, espera-se). Trata-se de uma visão compartilhada a
partir de profissionais da área da conservação que atuam em organizações da
sociedade civil.
As necessidades para o aperfeiçoamento do MIF no Brasil incluem:
· Implementar a
Política Nacional de MIF de forma ampla e participativa, além de incidente
sobre a criação e implementação de políticas e governanças em âmbito estadual e
municipal, de maneira a reconhecer, valorizar e instrumentalizar o trabalho de
comunidades locais;
· Reconhecer,
valorizar, robustecer e padronizar o trabalho de brigadas e brigadistas,
inclusive voluntárias e comunitárias;
· Incrementar
esforços e investimentos para promover pesquisas e monitoramento sobre ecologia
e efeitos do fogo em todos os biomas, considerando ecossistemas e
agrossistemas, além de amplificar a importância de brigadas florestais e
comunidades na produção e difusão de conhecimento;
· Efetivar ainda mais
o Sistema Nacional de Informações sobre o Fogo (SISFOGO) para promover, por
meio de gestão participativa e compartilhada, a integração e a coordenação de
instituições públicas, privadas e da sociedade civil e de políticas públicas e
privadas na promoção do MIF;
· Tornar o MIF uma
abordagem prática transversal que fortaleça a implementação de Soluções
Baseadas na Natureza relacionadas a políticas e planos de recuperação da
vegetação nativa e produção florestal, gestão de bacias hidrográficas,
adaptação a mudanças climáticas, pagamento por serviços ambientais, combate à
desertificação e gestão de risco;
· Comunicar para
fomentar harmonia entre os diferentes setores e instituições públicas e
privadas brasileiras, assim como maior entendimento sobre as dimensões
ecológica, socioeconômica e cultural que o MIF enseja, induzindo um espaço
propício para o exercício da cidadania.
Para concluir
Amadurecemos ainda de maneira imatura nossa forma de lidar com o fogo ou
grandes incidentes e suas sequelas são condições sem as quais não rompemos
inércias? Em pequenas propriedades e em grandes países, o desafio de
transicionar de um modelo de gestão de incêndios para uma modelo de gestão de
fogo está posto, sendo o recrudescimento do MIF no Brasil um avanço muito
importante, porém premente de maior capilaridade e transversalidade com outras
agendas. Quanto maior fica a terra a se cuidar, mais intrincadas vão ficando as
relações de poder e interesses que operam em prol do contrário, portanto, é
preciso não parar de atuar para equilibrar investimentos, participação social e
responsabilidades, diversificar temas, comunicar bem, valorizar o trabalho em
campo, além de calçar tudo isso em pesquisa, monitoramento, avaliação e
adaptação periódica.
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