quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 



 

AVALIAÇÃO DO FRIO OCUPACIONAL ALÉM DO ANEXO 9 DA NR 15

 

 


 

Meus caros, a avaliação da exposição ao frio é um ponto que merece nossa atenção, não acham? Temos o Anexo 9 da NR-15, que trata da insalubridade, mas digo para ti que, para uma análise de risco completa, ele apresenta limitações significativas, especialmente fora de seu escopo principal.

O Anexo 9 da NR-15 destina-se especificamente às “atividades ou operações executadas no interior de câmaras frigoríficas, ou em locais que apresentem condições similares, que exponham os trabalhadores ao frio”.

Ele adota uma abordagem qualitativa para caracterizar a insalubridade nessas condições, sem estabelecer limites de tolerância quantitativos claros baseados em parâmetros ambientais e fisiológicos cruciais para outras situações de frio. Ele não fornece uma metodologia robusta para avaliar o estresse térmico considerando a temperatura do ar, velocidade do vento, umidade, isolamento da vestimenta e a taxa metabólica do trabalhador em conjunto para diversas outras atividades expostas ao frio.

Essa ausência de critérios técnicos detalhados para múltiplas situações dificulta a avaliação precisa do risco real e a definição de medidas de controle que vão além da simples constatação da condição insalubre, focando na prevenção do estresse térmico por frio de forma mais ampla.

 

FERRAMENTA QUANTITATIVA ESSENCIAL
Felizmente, dispomos de referências técnicas internacionais mais completas, como a norma ISO 11079: Ergonomics of the thermal environment — Determination and interpretation of cold stress when using required clothing insulation (IREQ) and local cooling effects (em português: Ergonomia do ambiente térmico — Determinação e interpretação do estresse pelo frio utilizando o isolamento requerido da vestimenta (IREQ) e efeitos do resfriamento localizado). Esta norma introduz a metodologia IREQ (Índice de Isolamento Requerido da Vestimenta).

O IREQ calcula o isolamento térmico (em ‘clo’) que a vestimenta precisa oferecer para manter o equilíbrio térmico do corpo, prevenindo a hipotermia, considerando as condições ambientais e a atividade física.

 

A beleza dessa metodologia está em integrar variáveis essenciais:

            • Temperatura do ar e radiante média;

            • Velocidade do ar e umidade relativa;

            • Taxa metabólica (calor gerado pela atividade);

            • Duração da exposição.

Com base nesses dados, calcula-se o IREQ neutral (para conforto) e o IREQ min (isolamento mínimo para evitar estresse).

 

EXEMPLO SIMPLIFICADO DO IREQ
Imagine um trabalhador realizando uma atividade moderada (taxa metabólica de 150 W/m²) dentro de uma câmara fria a -5°C, com velocidade do ar baixa (0.2 m/s) e umidade de 80%, por um período de 2 horas. Utilizando a metodologia IREQ (com auxílio de software ou tabelas da norma), poderíamos calcular o isolamento mínimo requerido (IREQ_min) para essas condições. Suponhamos que o cálculo resulte em IREQ_min = 1.9 clo. Se a vestimenta fornecida ao trabalhador tiver um isolamento de apenas 1.5 clo, a metodologia indicaria que a proteção é insuficiente para a exposição contínua de 2 horas. A norma permitiria, então, calcular o tempo máximo de exposição segura com essa vestimenta (Dlim), orientando sobre a necessidade de pausas para reaquecimento ou a adoção de uma vestimenta com maior isolamento.

 

GESTÃO DE RISCO EFICAZ
Portanto, meu caro, embora o Anexo 9 da NR-15 cumpra seu papel legal para a insalubridade em câmaras frigoríficas e similares, ele é insuficiente para uma gestão de risco eficaz contra o frio em todas as suas formas. A metodologia IREQ (ISO 11079) nos oferece a ferramenta quantitativa necessária para avaliar o estresse térmico de forma precisa, selecionar vestimentas adequadas e definir controles que realmente protejam a saúde do trabalhador. Adotar essas práticas é elevar o nível da Higiene Ocupacional.


Referências:

            • BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 15 (NR-15): Atividades e Operações Insalubres. Anexo nº 9 – Frio. Brasília, DF.

            • INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 11079:2007: Ergonomics of the thermal environment — Determination and interpretation of cold stress when using required clothing insulation (IREQ) and local cooling effects. Geneva: ISO, 2007.

 

 

 

 

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MAIOR ACIDENTE AÉREO DO PAÍS EM CONGONHAS É TEMA DE SÉRIE DA NETFLIX

 

 


 

A minissérie Congonhas estreou na Netflix em 23 de abril último. Segundo a Folha de São Paulo, ocupou o top 10 das séries em 36 países, e no Brasil chegou a ocupar a primeira posição. Assisti logo na primeira semana.

Combinando relatos pessoais com detalhes da investigação, associados ao momento político e social vivido pelo Brasil e pelo retrato do setor aéreo à época do acidente em 2007, a série busca reconstituir em três episódios o maior acidente aéreo ocorrido até agora no Brasil, que foi o pouso do voo 3054 da TAM que fazia o trecho Porto Alegre a São Paulo, aeroporto de Congonhas. Morreram 199 pessoas.

 

CENÁRIO DO ACIDENTE
O primeiro episódio tem o depoimento de familiares de várias vítimas, além de abordar condições estruturais de Congonhas, como a inexistência do grooving ou sistema de drenagem da pista, excesso de pousos e decolagens com intervalos curtos entre eles, a localização do aeroporto, entre outros aspectos. Os depoimentos de especialistas, bombeiros e familiares das vítimas também mostram preocupações anteriores ao acidente, levantando os problemas tanto de infraestrutura como de gestão aeroportuária no Brasil.

 

IMPACTO E POSSÍVEIS CAUSAS
Já o segundo episódio busca melhor entender a noite do acidente, mostrando as condições climáticas adversas e as decisões tomadas pela tripulação de cabine. Aborda, também, a atuação do Corpo de Bombeiros. Entrevistas com especialistas e gravações da caixa-preta revelam a sequência de eventos que levaram à colisão do avião com um prédio da companhia aérea. O episódio também traz o impacto da tragédia na sociedade brasileira, além, claro, do impacto e da mobilização das famílias das vítimas, que se uniram para exigir esclarecimentos. Este episódio ainda contextualiza o acidente dentro da crise de gestão aeroportuária de 2006 e 2007, o “apagão aéreo”. Além de familiares e especialistas, protagonistas da época como o então presidente da TAM, Marco Bologna, e a então diretora da ANAC, Denise Abreu, também foram entrevistados.

 

CONSEQUÊNCIAS DO ACIDENTE
O episódio final analisa as consequências do acidente e – “than-ram!!!” – Adivinhem só qual foi o método utilizado para elencar as falhas sistêmicas e pontuais que em conjunto compõem os fatores contribuintes do acidente? O bom, eficiente, simples e direto método e conceito do queijo suíço, do James Reason – aquele, que os críticos de sempre, que nunca apresentaram nada produtivo, gostam de espinafrar. Pois é, antigo, anacrônico, linear…, mas que foi utilizado na Pandemia e também agora na compreensão dos fatores envolvidos no maior acidente aéreo do Brasil. Chego a imaginar que a saúde e o setor aéreo são sistemas simples… só que não. E ambos usam o conceito do queijo suíço. Será que os tomadores de decisão na pandemia, os especialistas entrevistados pela Netflix, o mundo das empresas e setores que hoje utilizam de forma crescente os conceitos de James Reason estão tão errados assim? Ou será que a crítica gratuita, superficial, sem conhecimento das suas bases, interpretações e publicações é que está certa? Cada um que tire suas próprias conclusões.

 

ANÁLISE SISTÊMICA
Finalizando, a minissérie informa que o relatório da Polícia Federal atribuiu aos pilotos a responsabilidade pelo acidente. Mas, como sempre, o modelo de Reason consegue associar diversos outros fatores contribuintes sistêmicos que induziram, segundo um dos especialistas entrevistados na série, os pilotos ao erro com os manetes.

No diagrama do queijo suíço apresentado no documentário estão identificados o apagão aéreo, o cansaço, o uso de uma cabine com dois pilotos ao invés de piloto e co-piloto, o peso, a pista escorregadia, a ausência de área de escape, o treinamento falho, a falta de recall por parte da Airbus, e a configuração dos manetes. A figura abaixo, extraída do terceiro episódio, mostra o diagrama.

 

 

Para terminar, recomendo aos profissionais de Segurança que ainda não assistiram esta série e que tenham acesso à Netflix, que o façam. O estudo deste caso traz importantes elementos para que se compreenda que quase sempre as soluções mais simples, e a análise da causa mais imediata são insuficientes ou mesmo injustas para se entender o que de fato aconteceu em um acidente, e para que se busquem recomendações que possam evitar a sua recorrência. Como a análise apresentada no documentário, é necessário ir muito além de uma simples discussão de dois minutos baseada em nossos pré-conceitos.

 

 

 

 

 

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