MAIOR
ACIDENTE AÉREO DO PAÍS EM CONGONHAS É TEMA DE SÉRIE DA NETFLIX
A minissérie Congonhas estreou na Netflix em 23 de abril
último. Segundo a Folha de São Paulo, ocupou o top 10 das séries em 36 países,
e no Brasil chegou a ocupar a primeira posição. Assisti logo na primeira
semana.
Combinando relatos pessoais com detalhes da
investigação, associados ao momento político e social vivido pelo Brasil e pelo
retrato do setor aéreo à época do acidente em 2007, a série busca reconstituir
em três episódios o maior acidente aéreo ocorrido até agora no Brasil, que foi
o pouso do voo 3054 da TAM que fazia o trecho Porto Alegre a São Paulo,
aeroporto de Congonhas. Morreram 199 pessoas.
CENÁRIO
DO ACIDENTE
O
primeiro episódio tem o depoimento de familiares de várias vítimas, além de
abordar condições estruturais de Congonhas, como a inexistência
do grooving ou sistema de drenagem da pista, excesso de pousos e
decolagens com intervalos curtos entre eles, a localização do aeroporto, entre
outros aspectos. Os depoimentos de especialistas, bombeiros e familiares das
vítimas também mostram preocupações anteriores ao acidente, levantando os problemas
tanto de infraestrutura como de gestão aeroportuária no Brasil.
IMPACTO
E POSSÍVEIS CAUSAS
Já
o segundo episódio busca melhor entender a noite do acidente, mostrando as
condições climáticas adversas e as decisões tomadas pela tripulação de cabine. Aborda,
também, a atuação do Corpo de Bombeiros. Entrevistas com especialistas e
gravações da caixa-preta revelam a sequência de eventos que levaram à colisão
do avião com um prédio da companhia aérea. O episódio também traz o impacto da
tragédia na sociedade brasileira, além, claro, do impacto e da mobilização das
famílias das vítimas, que se uniram para exigir esclarecimentos. Este episódio
ainda contextualiza o acidente dentro da crise de gestão aeroportuária de 2006
e 2007, o “apagão aéreo”. Além de familiares e especialistas, protagonistas da
época como o então presidente da TAM, Marco Bologna, e a então diretora da
ANAC, Denise Abreu, também foram entrevistados.
CONSEQUÊNCIAS
DO ACIDENTE
O
episódio final analisa as consequências do acidente e – “than-ram!!!” –
Adivinhem só qual foi o método utilizado para elencar as falhas sistêmicas e
pontuais que em conjunto compõem os fatores contribuintes do acidente? O bom,
eficiente, simples e direto método e conceito do queijo suíço, do James Reason
– aquele, que os críticos de sempre, que nunca apresentaram nada produtivo,
gostam de espinafrar. Pois é, antigo, anacrônico, linear…, mas que foi
utilizado na Pandemia e também agora na compreensão dos fatores envolvidos no
maior acidente aéreo do Brasil. Chego a imaginar que a saúde e o setor aéreo
são sistemas simples… só que não. E ambos usam o conceito do queijo suíço. Será
que os tomadores de decisão na pandemia, os especialistas entrevistados pela
Netflix, o mundo das empresas e setores que hoje utilizam de forma crescente os
conceitos de James Reason estão tão errados assim? Ou será que a crítica
gratuita, superficial, sem conhecimento das suas bases, interpretações e
publicações é que está certa? Cada um que tire suas próprias conclusões.
ANÁLISE
SISTÊMICA
Finalizando,
a minissérie informa que o relatório da Polícia Federal atribuiu aos pilotos a
responsabilidade pelo acidente. Mas, como sempre, o modelo de Reason consegue
associar diversos outros fatores contribuintes sistêmicos que induziram,
segundo um dos especialistas entrevistados na série, os pilotos ao erro com os
manetes.
No diagrama do queijo suíço apresentado no
documentário estão identificados o apagão aéreo, o cansaço, o uso de uma cabine
com dois pilotos ao invés de piloto e co-piloto, o peso, a pista escorregadia,
a ausência de área de escape, o treinamento falho, a falta de recall por parte
da Airbus, e a configuração dos manetes. A figura abaixo, extraída do terceiro
episódio, mostra o diagrama.
Para terminar, recomendo aos profissionais de Segurança
que ainda não assistiram esta série e que tenham acesso à Netflix, que o façam.
O estudo deste caso traz importantes elementos para que se compreenda que quase
sempre as soluções mais simples, e a análise da causa mais imediata são
insuficientes ou mesmo injustas para se entender o que de fato aconteceu em um
acidente, e para que se busquem recomendações que possam evitar a sua
recorrência. Como a análise apresentada no documentário, é necessário ir muito
além de uma simples discussão de dois minutos baseada em nossos pré-conceitos.
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