TIRANDO
ONDA: O PARA SURFE ABRE O MAR PARA A DIVERSIDADE
O surfe
quebra barreiras e promove a inclusão de pessoas com deficiência. A experiência
de se mover nas maritimidades está alavancando ferramentas de acessibilidade
Cadeira de rodas
adaptada para
acesso à praia.
Crédito: Vitória Borges
A praia, no contexto brasileiro, evoca sentimentos de liberdade e
prazer, pois está associada a um espaço lúdico, relaxante, sociável e de
bem-estar. No entanto, para desfrutá-la plenamente, é preciso combater a
normatização do “corpo de praia” – a ideia predominante acerca de qual corpo
deve usufruir do ambiente da praia, do mar e ser beneficiado pelas políticas
públicas. O acesso a esses ambientes ainda não é uma realidade para Pessoas
com Deficiência (PcD), pois há barreiras físicas de acessibilidade universal
e barreiras simbólicas que excluem e territorializam outras possibilidades de
vivenciar a maritimidade.
Estar sobre uma prancha, sustentado pela água e em diálogo constante com
o imprevisível, reverte padrões, gerando autonomia real e vívida. Essa
experiência, quando acompanhada de acolhimento, orientação técnica e um
ambiente seguro, transforma cada gesto em possibilidade de reconstrução.
O corpo, como a escritora Adrienne Rich nos lembra, é a nossa geografia
mais íntima, é um espaço pessoal e um elo sensorial para as experiências no
mundo. Ele carrega trajetórias das nossas vivências e as necessidades que
buscamos satisfazer. No mar, o corpo do praticante se torna território de
escuta, experimentação e transformação: a flutuação, a força da onda, o toque
da água salgada e a interação com a paisagem aquática mobilizam sensações
profundas, despertando confiança, entrega e presença. Nesse cenário, o contato
com o mar surge como uma potente ferramenta que vai além da inclusão,
estimulando uma conexão profunda com o próprio corpo, com a natureza e com o
prazer de se satisfazer no mundo.
A Praia de São Lourenço, em Bertioga (SP), recentemente foi palco de uma
vivência de surfe adaptado em parceria com a Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e a Escola de Surf Riviera, para consolidar o potencial da cidade
para o turismo inclusivo com infraestrutura adaptada.
Relatos sobre a vivência de surfe adaptado em Bertioga
“Experiência
maravilhosa que tive a oportunidade de vivenciar. […] eu e minha filha, ela
sempre gostou muito de água, curtiu bastante, nem queria sair da água […]”
“Passando para
agradecer toda a equipe organizadora do evento, vocês são incríveis. […],
proporcionando esse dia para os alunos da natação, um excelente treino de
habilidades sociais. E mostrando que as pessoas com deficiências são
pertencentes de todos lugares”
“Meu esposo, minha
filha, meu filho estiveram, e voltaram pra casa transbordando alegria pela
experiência que vivenciaram”.
“Meu esposo está
perto de completar 40 anos, teve a oportunidade de conhecer o mar, ele tem
muita dificuldade social e de interação, e se sentiu confortável em estar com
vocês”.
Maritimidades
O mar e o ambiente aquático, como um todo, são investigações de vivência
e representação. As percepções que podem ser notadas pelas pessoas na paisagem,
como vento, areia, sol, sal, sabores e odores, são incorporadas nas suas
relações. Isso porque, ao entrar em contato com a água, o corpo absorve
minerais e outros componentes que provocam reações químicas e orgânicas nele,
resultando em sensação de bem-estar. A estreita relação humana com corpos
d’água, principalmente no mar, marca experiências de vida importantes para o
desenvolvimento de habilidades sociais, técnicas e econômicas. Todas essas
habilidades são intrínsecas ao que podemos chamar de maritimidade, ou seja,
relações sociais diversas com o mar, seja para trabalho, lazer,
espiritualidade, explorações econômicas, políticas e sociais.
A apropriação do mar, no Brasil, por classes mais altas, é um processo
importante para o entendimento dessas territorialidades que disputam o ambiente
para satisfação de diversos desejos. Nesse processo, muitos povos locais são
desapropriados dos seus espaços de vida. As progressões de disputa pelo
ambiente litorâneo seguem o exemplo da Proposta de Emenda à Constituição
(PEC nº 3 de 2022), conhecida como PEC das Praias, que
sugere a privatização de regiões praieiras. A aplicação dessa proposta pode
acentuar a exclusão social ao ambiente de praia, inviabilizando o amplo acesso
ao ambiente marinho e degradando o ecossistema costeiro.
Diante de tais conflitos, o acesso ao mar já é uma realidade restrita a
poucos grupos de pessoas, além da ocupação dos espaços públicos e aquáticos por
empresas e indústrias. Dada a instituição da Lei Brasileira de Inclusão
(LBI), a restrição do
acesso de pessoas com deficiência ao mar é considerada inconstitucional, o que
implica a imposição do Estado em garantir o acesso livre e inclusivo, bem como
a ampliação da cultura oceânica para todas e todos, inserindo as comunidades
nesses espaços.
Surfe adaptado
O surfe adaptado é uma modalidade que consiste em permitir a experiência
de uma pessoa com deficiência na prancha. Em uma sociedade que
impõe diferentes barreiras para tal grupo, o ato de surfar soa como um grito de
liberdade, que permite o contato direto com o mar e diferentes sensações
corporais, garantindo o direito ao lazer e ao esporte, conforme previsto pelo
Artigo 42 da LBI. A prática, que promove o contato direto com o mar, é vista
como um ato de autonomia e oferece diversos benefícios físicos, como a melhoria
da coordenação e equilíbrio, além de vantagens emocionais e sociais, como o
aumento da autoestima e a redução da ansiedade.
Além das pessoas com deficiência, o surfe adaptado também pode ser
utilizado como ferramenta terapêutica para outros grupos, como idosos ou
pessoas com depressão. Para que a prática seja viável, é necessário o apoio de
projetos que forneçam a estrutura necessária e equipes qualificadas,
profissionais da educação, saúde e voluntárias e voluntários. As adaptações
incluem esteiras de acesso, cadeiras de rodas especiais e diferentes tipos de
pranchas e flutuadores.
Pessoa com deficiência sobre uma
prancha no mar. Crédito: Vitória
Borges
No Brasil, o projeto Adaptsurf foi pioneiro, sendo
inaugurado no Rio de Janeiro, em 2007. Depois, outros projetos foram sendo
criados, promovendo o acesso da PcD ao surfe adaptado, tanto no contexto de
lazer e reabilitação, como no âmbito competitivo. Por mais que enfrente as
barreiras da sociedade, o surfe adaptado é bem estruturado e possui muitos
praticantes no Brasil e no mundo. No último campeonato mundial de para surfe,
houve a participação de 25 países, contemplando todos os continentes, dado que
demonstra que a prática do surfe adaptado já faz parte de diferentes culturas e
ainda tem muito potencial de crescimento.
Para surfe
O para surfe é a modalidade competitiva do surfe adaptado, com atletas
divididos em 9 classes funcionais. Apesar de ter uma
estrutura de alto rendimento, com campeonatos mundiais promovidos pela Associação Internacional de Surfe (ISA, na sigla em
inglês), o para surfe ainda não faz parte dos Jogos Paralímpicos, mas há uma
mobilização para sua inclusão a partir de 2032. O acesso ao para surfe se
restringe às pessoas com deficiência que são enquadradas nas classes
funcionais, sendo toda a conjuntura do esporte competitivo alocada apenas para
quem faz parte desse recorte. Entretanto, mesmo não dando acesso ao campeonato
mundial, a Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) promove
baterias destinadas a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA),
deficiência auditiva e deficiências intelectuais.
Em agosto de 2024, foi aprovado um programa pelo Ministério do Esporte
denominado Maré Inclusiva, que oferecerá a
prática do surfe adaptado e para surfe, objetivando a melhora da qualidade de
vida, autonomia e inclusão na sociedade como um todo. O programa garante 50%
das vagas para meninas e mulheres e tem como meta promover, apoiar e fomentar a
criação de núcleos de atendimento gratuitos voltados ao para surfe,
possibilitando, assim, o impulsionamento da modalidade. O Brasil é bicampeão
mundial por equipes e possui um vasto histórico de medalhas individuais em
campeonatos da ISA. Foram conquistadas 57 medalhas
individuais, sendo 24 de ouro, 17 de prata, 9 de bronze e 7 de cobre, nos
últimos 10 anos.
Diferença entre Surfe Adaptado e Para surfe
Surfe Adaptado: Prática realizada por qualquer pessoa
com deficiência física, intelectual, visual, auditiva ou com transtorno do
neurodesenvolvimento, sem nenhum tipo de restrição na participação. Com foco
terapêutico e de lazer, é permitido diferentes adaptações e suporte de
monitores.
Para surfe: Utiliza a mesma estrutura do Surfe Adaptado, porém, com
foco competitivo. Nas competições oficiais, participam apenas os atletas que
são elegíveis nas 9 classes funcionais (7 para deficiência física e 2 para
deficiência visual). Em tais campeonatos, é onde se concretiza todo processo de
treinamento para as demonstrações das habilidades do Para surfe, tendo como
critérios de avaliação a técnica, grau de dificuldade, combinação de manobras,
variedade, velocidade, força e fluidez. Há suporte de monitores apenas para
alguns casos em que é necessário por segurança.
No Brasil, há um destaque de melhores praias para o para surfe: praia da
Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, conhecida pelo projeto Praia Para Todos, que oferece
infraestrutura completa de acessibilidade, incluindo cadeiras anfíbias e
esteiras na areia, além de apoio de voluntárias e voluntários para a prática do
surfe adaptado. A praia do Gonzaga, em Santos (SP) é pioneira, pois abriga a
primeira escola pública de surfe adaptado do
mundo; a infraestrutura da orla da cidade, com foco em acessibilidade
universal, torna a experiência ainda mais completa. Além disso, a cidade de
Guarujá (SP) também conta com projetos como o Surf Special, na Praia das
Astúrias. Além disso, há uma série de locais na costa brasileira, de norte à
sul, em que se encontra pessoas com deficiência praticando a modalidade em
questão e demonstrando suas potencialidades e habilidades dentro do
surfe.
Em maio de 2025, foi realizado um projeto de surfe adaptado que levou
alunas e alunos da extensão de natação paralímpica da Faculdade de Educação
Física da Unicamp para surfar na praia de São Lourenço de Bertioga, no litoral
paulista. Na ocasião foi possível vivenciar uma série de sensações que
fortaleceram os vínculos entre os participantes, além de proporcionar o surfe
para as pessoas com deficiência do projeto de extensão. A experiência
contribuiu no acesso ao surfe adaptado, trouxe novas perspectivas e obteve
depoimentos de realização e satisfação dos envolvidos.
Participante da atividade
promovida pela
Unicamp. Bertioga (SP). Crédito:
Vitória Borges
Os esportes e exercícios marinhos são de extrema importância para o
desenvolvimento físico e o bem-estar das pessoas. A participação de pessoas com
deficiência, idosos e pessoas com mobilidade reduzida potencializam o avanço
das leis e tecnologias de acessibilidade, cada vez mais necessárias, e mostram
que o mar é um espaço para todas as pessoas, resultando em movimentos de
valorização de atividades corporais, educação social sobre o cuidado e a
preservação do ambiente oceânico, gerando consciência coletiva quanto ao acesso
adaptado e institucional das pessoas em cada lugar.
Vale a pena ler
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Para surf é potência: Ingrid
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(Des)localizações: geografias
do corpo na poesia de Adrienne Rich
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