sexta-feira, 30 de junho de 2023

 




 

CULTURA ORGANIZACIONAL X SEGURANÇA DO TRABALHO: INDICAÇÕES PARA IMPLEMENTAÇÃO

 

 

Embora haja diversas iniciativas voltadas à segurança do trabalho, anualmente são identificados milhões de casos, ocasionando prejuízos não apenas à organização, mas também à sociedade, ao Estado, ao Sistema de Saúde. Desta forma, este material tem como questão norteadora: Como podem ocorrer implementações de ferramentas que possibilitem uma cultura organizacional voltada à segurança do trabalho? Assim, este estudo buscou demonstrar através de base teórica a importância da segurança do trabalho, os números e algumas proposições para sua implementação, sugerindo por fim, melhores práticas para a implementação.

Palavras-chave: segurança do trabalho, gestão da segurança, cultura de segurança.

 

Segundo dados previdenciários brasileiros, em um período de 8 anos, o Brasil registrou 5,6 milhões de doenças e acidentes de trabalho, com um impacto previdenciário acima de 100 bilhões de reais. Estima-se que, no mundo, a cada 15 segundos um trabalhador é morto por acidente de trabalho ou doença laboral (BASILIO, 2021).

Nota-se que uma grande evolução ocorreu em todas as indústrias com a adoção de medidas de sistema de gestão de segurança e melhorias de engenharia implementadas em máquinas e equipamentos. Em vista disso, o número de acidentes de trabalho vem se estabilizando com o passar dos anos. No Brasil, entre os anos de 2002 e 2019, a maior parte dos acidentes (15%) ocorreu durante a utilização de máquinas e equipamentos (BASILIO, 2021). O impacto desses acidentes é tremendo na vida do trabalhador, de seus familiares, da comunidade e da indústria.

O Brasil tem cerca de 8 mortes para cada 100 mil pessoas empregadas. Em outros países, como a Argentina, o número é de 3,7 mortes para cada 100 mil pessoas empregadas.  No Canadá, 1,9 mortes para cada 100 mil pessoas empregadas, e no Japão, 1,4 mortes para cada 100 mil pessoas empregadas (SANTOS, 2021).

No entanto, esses números demonstram que mesmo que haja iniciativas diversas, os números de mortes apontam que ainda é necessário ainda que as empresas estabeleçam uma cultura organizacional capaz de reduzir e, até mesmo, zerar o número de morbimortalidades ocasionadas por acidente de trabalho.

Desta feita, este material tem como questão norteadora: Como podem ocorrer implementações de ferramentas que possibilitem uma cultura organizacional voltada à segurança do trabalho? Sendo assim, este estudo visa através de revisão da literatura, bem como das estatísticas esclarecer sobre os aspectos gerais e conceituais de uma cultura de segurança, e, a partir daí, estabelecer subsídios para proposição de implementação. 

 

ASPECTOS GERAIS SOBRE A CULTURA DE SEGURANÇA

A cultura de segurança tem sua origem baseada no conceito do triângulo de segurança, de 1930, que foi aperfeiçoado por Frank Bird em 1969 e revisado pelo governo britânico em 1993, no qual apresenta-se a conclusão de que para cada incidente grave existem em torno de 189 e 300 incidentes menores. A cultura de segurança está relacionada à identificação e eliminação de riscos de ocorrência desses acidentes (BRITTEN, 2011).

 

Figura 1 – Ilustração da pirâmide proposta por Frank Bird em 1969

 

Fonte: Cyrino (2017).

 

Apesar da teoria da pirâmide de Bird ser antiga, o conceito de cultura de segurança é algo que só começou a ser discutido na década de 80 (HARRIS, 2015), tendo como um marco o acidente da Piper Alpha (BURNS, 2003).

Dentro deste contexto, nota-se que a cultura de segurança, ou seja, aquela que envolve o nível de compromisso com a segurança (ALKAZIMI; ALTABBAKH, 2015), é um fenômeno que influencia a tomada de decisão dos trabalhadores (HARRIS, 2015) e reflete no nível de maturidade de segurança da organização (SPADACCINI; ROBINSON, 2007).

Uma das formas de medir o nível de maturidade das empresas é através da Curva de Bradley, que é uma curva que mostra, de forma visual, os estágios de maturidade da organização. Como pode ser observado na Figura 1, de acordo com o nível de maturidade de segurança da organização, o índice de acidentes será menor (WALDHELM NETO, 2021).

 

Figura 2 – Curva de maturidade da cultura de segurança.

 

Fonte: Waldhelm Neto (2021).

 

Em uma organização rica em cultura de segurança, comportamentos inseguros não são aceitáveis. Incidentes são tidos como preveníeis e cabe a cada indivíduo demonstrar consciência da importância de sua contribuição para a segurança dentro e fora do trabalho (AL-KUDMANI, 2008). Crenças e valores compartilhados em um grupo geram um sentimento, não de obrigação, mas de cuidado de um indivíduo com o outro, o que afeta os níveis de maturidade, gerando um aumento progressivo (ROBERTS, 2012).

Atitudes e percepções relativas à segurança são oriundas da observação, algo que fica no subconsciente (BURNS, 2003). Os indivíduos tendem a replicar hábitos e comportamentos de um grupo (LAWRIE, 2002), dessa forma, o exemplo é a melhor forma de caminhar para um nível mais elevado de maturidade.

Embora a reprodução de um comportamento apresentado pelo grupo seja algo comum, ao observar como a cultura de segurança se dá dentro de uma organização, percebe-se que ela não é algo uniforme, mas sim algo complexo, influenciável, que resulta nas práticas laborais, ou seja, no modo como as coisas são feitas na organização (NESA; HADIKUSUMO, 2017). “A cultura corresponde a um conjunto de hábitos, crenças e conhecimentos de um povo ou um determinado grupo” (PORFÍRIO, 2021).

Pode-se verificar similaridades entre as definições de diversos autores e organizações, e com isso pode-se chegar à conclusão de que a cultura é a forma que as coisas são feitas em uma organização. Ela é influenciada pelo meio, pelas atitudes dos gerentes (não apenas aquelas relacionadas à segurança) e pelo grau de envolvimento de todos os níveis da organização. A cultura de segurança pode ser claramente observada pelas atitudes, tipos de acidentes, e ainda pode ser medida através de pesquisas para compreender as crenças e como os membros do grupo reagiriam a certas situações.

Além do impacto humano e social, uma boa cultura de segurança gera repercussão nos ganhos com reputação e produtividade.

Dito isso, é possível concordar que tanto a indústria de óleo e gás como outras indústrias estiveram evoluindo muito nos últimos anos com a introdução das soluções de engenharia nos equipamentos e com a introdução de normas governamentais e mercadológicas, porém, a taxa de acidentes continua alta. Algo a mais precisa ser feito para melhorar o desempenho humano, já que, hoje, 90% dos acidentes estão relacionados a atos inseguros (GADDIS, 2012). Sendo assim, o maior benefício da implementação da cultura de segurança é a prevenção de acidentes.

 

IMPLEMENTAÇÃO DA CULTURA DE SEGURANÇA

Uma vez que 90% dos incidentes ocorrem por conta de atos inseguros, uma das formas de prevenir esses incidentes seria pelo controle de variabilidade.  É preciso realizar um controle do ambiente para que as pessoas possam cumprir as regras, pois não se pode pedir para um funcionário agir com segurança se, ao mesmo tempo, não há barreiras adequadas instaladas nas máquinas e equipamentos. Ou seja, é preciso eliminar essas ´perturbações do sistema´, aqui, definidas como variabilidade, para conseguir chamar a atenção do trabalhador para a questão da segurança. A organização deve mostrar que a segurança é de fato importante (GADDIS, 2011). A Figura 3 exemplifica um ato inseguro associado a uma condição insegura.

 

Figura 3 – Ilustração de condição insegura.

 

Fonte: (USP, 2018).

 

A implementação de uma cultura de segurança parte de uma visão organizacional bem desenvolvida, visto que uma visão organizacional muito ampla pode levar a diversas interpretações e confundir o trabalhador, que pode acabar colocando o negócio acima da segurança. Uma visão adequada é direta ao ponto, tem propósito e valores, compromete e anima a força de trabalho, que deve ser bem apoiada pela liderança e comunicada pela organização (GADDIS, 2011).

O gráfico 1, indica o controle de processo utilizado na estatística, no qual é possível observar a existência ou a falta de variação em um processo e a sua amplitude (ADEOTI; OLAOMI, 2016). Esse conceito pode ser facilmente aplicado a Engenharia de Segurança, levando em consideração os diferentes tipos possíveis de observações.

 

Gráfico 1 – Ilustração do gráfico de controle de processo usado na estatística.

 

Fonte: Adeoti; Olaomi, 2016.

 

Pode-se utilizar como exemplo o uso de estilete e a diversidade de acidentes com estilete. Após um acidente, foi observado que o estilete tinha mais de 100 usos na fábrica, mas ao invés de puramente proibir o uso do estilete, foi feito um trabalho para entender quais seriam as ferramentas adequadas para cada atividade, sendo essas introduzidas, e onde foi necessário manter o estilete, um modelo mais adequado foi introduzido (GADDIS, 2011).

A mudança, de forma evolutiva e não aguda, deve ser estruturada.  Ela precisa começar pela liderança, de modo a criar indicadores reativos e proativos, ter o envolvimento dos funcionários (como na Figura 5), dar autonomia a grupos de trabalho de segurança e ver esses grupos gerando projetos de melhoria de segurança e campanhas de segurança (SIMON, 2002). Na Figura 6, pode-se observar um modelo de campanha de segurança que poderia facilmente ser iniciado por grupos de trabalho diretamente relacionado com o dia a dia das tarefas.

 

Figura 4 – Exemplo de cartaz de campanha de segurança.

 

Fonte: Dupont Sustainable Solutions (2021).

 

É preciso a introdução adequada ou, em sistemas já existentes, a revisão do programa de reporte de incidentes. Assim,  o programa consegue eliminar o medo de retaliação (por que reportar algo e ter o risco de problemas futuros?), da falta de reconhecimento (o que acontece de bom ou ruim, para mim, se eu reportar um incidentes?), da falta de acesso ao sistema de reporte, a pressão negativa dos colegas, a preocupação com a repercussão do reporte, a preocupação do impacto do reporte no trabalho, pois o indivíduo que tem medo de ser marcado como alguém que só atrapalha não quer culpar ninguém ou ser culpado por nada (BRITTEN, 2011). É preciso haver envolvimento com aspectos mais íntimos do comportamento e do pensamento e, através de exemplos, mostrar que o sistema é confiável, para que ao longo do tempo o sistema ganhe credibilidade e encoraje a participação.

Uma cultura de segurança começa com gestão, com liderança. A presença da liderança no dia a dia é o que forma uma cultura de segurança, ou seja, se um líder fala em resultados financeiros com mais ênfase do que em segurança, o foco da equipe será em resultado financeiro e não em segurança. Da mesma forma, se o engajamento desse líder for maior em reuniões com grupos financeiros e comerciais e não de segurança do trabalho ou segurança do processo, o foco dos indivíduos da equipe também não será nessas disciplinas. Para resolver esse problema, é possível focar em: criação de grupos de trabalho, aconselhamento de segurança para líderes (diversos níveis), recompensas por trabalhos realizados com segurança, estar sempre dando suporte financeiro e moral, medição constante da cultura para adequação de soluções, análise de causa raiz com a participação de todos e compartilhamento de responsabilidade e presença (HALVORSEN; LILAND; MIDDELTHON, 2006). Além disso, a culpa dos acidentes não deve ser colocada no trabalhador, a responsabilidade deve ser atribuída à gerência ou ao próprio processo (AL-KUDMANI, 2008).

O estado geral de atenção deve ser mantido com uma inquietação crônica e promover a mudança do sentimento de que “se não tivemos acidentes, está tudo bem” para “não tivemos acidentes – o que podemos não estar vendo? O que precisa ser feito? ”. A rotina faz com que as pessoas percam a capacidade de ver e reagir ao perigo. O indivíduo ou o grupo torna-se cego e surdo aos pequenos e fracos sinais de que algo pode dar errado e não consegue reagir de forma enérgica o suficiente para prevenir que algo pequeno venha a surpreender com um acidente (EHI, 2014). Ainda seguindo essa mesma linha de pensamento, outro autor indica que, mundialmente, chegou-se a uma estagnação na redução de acidentes, e que as melhoras dos últimos 20-30 anos não foram suficientes (LAWRIE, 2002). Além disso, em alguns grupos internacionais e diversos o idioma também pode ser uma barreira (LEVY et al., 2012).

A perspectiva do antecedente da capacidade de reconhecimento e reação a riscos é abordada por Alkazimi e Altabbakh (2015), que sugerem que essas capacidades devem ser desenvolvidas durante a formação do engenheiro, tornando-o mais capacitado para enfrentar os riscos da indústria (ALKAZIMI; ALTABBAKH, 2015). Já Lawrie (2002) vai um pouco mais além e acredita que esse desenvolvimento deve ser iniciado na infância e adolescência. Ele relata um trabalho feito com jovens de 10-11 anos de idade, no reconhecimento de riscos, e com jovens de 15-16 anos, na introdução de riscos da indústria, no qual essas capacidades foram desenvolvidas através de experimentos. A crença de Lawrie (2002) é que essa cultura, se iniciada ainda na juventude, pode prevenir que o indivíduo se torne um trabalhador com atitudes inadequadas em relação a segurança (LAWRIE, 2002).

Não se pode deixar de diferenciar o treinamento infantil do treinamento do adulto ou profissional, uma vez que o adulto tem outras formas de aprender. O adulto não é passivo em relação ao treinamento, o treinamento precisa ser vivenciado, e este deve estar motivado a estar ali. O ambiente de aprendizagem tem que ser colaborativo, de modo que o profissional consiga compreender como pode aplicar o que está sendo estudado no dia a dia dele e faça associações com as suas experiências, o que também implica em uma avaliação mais participativa ao invés de uma avaliação objetiva (CARVALHO et al., 2010).

 

INDICAÇÕES PARA IMPLEMENTAÇÃO DA CULTURA DE SEGURANÇA

Para que se possa criar uma cultura de segurança, alguns outros aspectos também devem ser considerados:

·       Na questão da organização, é preciso ter uma visão clara e ir direto ao ponto (GADDIS, 2012);

·       É necessário evitar barreiras linguísticas (LEVY et al., 2012);

·       Deve-se focar em métricas proativas e não reativas (AL AZMI; ABDULLAH; BADAWI, 2014);

·       É preciso tirar o foco da culpa do trabalhador e pensar no processo (AL-KUDMANI, 2008; BRITTEN, 2011).

·       Deve-se manter um programa de gestão de observações forte, simples e com credibilidade (BRITTEN, 2011);

·       É preciso criar um estado geral de atenção, uma inquietação crônica, mudar o sentimento de “não tivemos acidentes, está tudo bem” para “não tivemos acidentes, o que podemos não estar vendo? O que precisa ser feito? ” (EHI, 2014);

·       A cultura de segurança precisa vir da formação do indivíduo, não apenas do ambiente laboral (ALKAZIMI; ALTABBAKH, 2015; LAWRIE, 2002);

·       Os funcionários precisam ser elementos ativos e estimulados a trabalhar em iniciativas para melhorar a segurança em um processo evolutivo (SIMON, 2002);

·       Uma liderança presente, com foco na segurança, é o elemento principal (HALVORSEN; LILAND; MIDDELTHON, 2006).

 

Desse modo, é possível dizer que existem diversas maneiras de se implementar uma cultura de segurança, não existe um único caminho. É preciso avaliar, entender e estruturar uma solução para cada ambiente (assim como um médico ao tratar um paciente), não deixando de lado nenhum dos aspectos citados anteriormente.

A implementação da cultura de segurança dependerá de condições muito variadas que estão relacionadas à organização, dentre elas, encontra-se a própria natureza humana. Além disso, foi observado que não é possível diferenciar as experiências das empresas que atuam em diferentes ramos industriais ou não industriais. Tanto a motivação quanto o entendimento do que é a cultura de segurança e a sua forma de implementação são muito similares em todas elas.

Cada um dos indivíduos dentro de uma empresa, a sua forma de trabalhar (processos escritos e não escritos), as máquinas, o ambiente, os materiais, a maneira como um trabalhador olha para o outro, enfim, cada uma das pequenas engrenagens que compõem esse sistema complexo que é uma empresa, tão similar a um organismo vivo, interfere no processo de implementação de uma cultura de segurança. O treinamento efetivo dos profissionais, que leva em consideração a sua natureza adulta, não deve ser negligenciado, de modo que permita ao indivíduo um entendimento profundo e não superficial.  As formas de avaliação utilizadas no treinamento vão ditar o comportamento do profissional no dia a dia (GARCIA, 2009). Não é possível se dizer evoluído em uma cultura de segurança se essa não faz parte do dia a dia de todos, muito menos se existir qualquer descrença em relação ao compromisso da liderança com segurança ou se ela estiver em qualquer outra posição que não a primeira, o que muitas vezes é observada pelo trabalhador na falta de coisas muito simples no dia a dia.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A implementação das ações sugeridas neste trabalho pode contribuir para a implementação de uma cultura de segurança e, por consequência, para a redução de acidentes relacionados a atos inseguros. Mas não somente isso. Já que esta é uma cultura interdependente, a implementação da segurança e a sustentação do contexto de não aceitação da condição “de que está tudo bem”, também colaboram para a melhoria e resolução de condições inseguras. O método escolhido para os treinamentos terá influência direta no dia a dia do funcionário, entretanto, é importante lembrar que não existe uma solução única e que uma avaliação detalhada precisa ser feita antes de se desenhar um processo de introdução a uma cultura de segurança. A atenção e participação ativa do líder em relação aos mínimos detalhes da organização é essencial para a execução de qualquer modelo que venha a ser adotado.

 

REFERÊNCIAS

 

ADEOTI, O. A.; OLAOMI, J. O. A moving average S control chart for monitoring process variability. Quality Engineering, v. 28, n. 2, p. 212-219, 2016.

AL AZMI, B.; ABDULLAH, A.; BADAWI, F. Why Promoting Safety Culture? Abu Dhabi International Petroleum Exhibition and Conference – OnePetro, 2014.

ALKAZIMI, M. A.; ALTABBAKH, H. M. Building Safety Culture within Novice Engineers. SPE Kuwait Oil and Gas Show and Conference – OnePetro, 2015.

AL-KUDMANI, A. S. Building a Safety Culture-Our Experience in Saudi Aramco. SPE International Conference on Health, Safety, and Environment in Oil and Gas Exploration and Production – OnePetro, 2008.

BASILIO, P. Brasil é 2º país do G20 em mortalidade por acidentes no trabalho. G1, 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/05/01/brasil-e-2o-pais-do-g20-em-mortalidade-por-acidentes-no-trabalho.ghtml> Acesso em: 4 mai. 2022.

BRITTEN, T. Near-Miss Reporting: The Missing Link of Safety Culture Revolution. In: ASSE Professional Development Conference and Exposition – OnePetro, 2011.

BURNS, C. The role of trust in safety culture. SPE Offshore Europe Oil and Gas Exhibition and Conference – OnePetro, 2003.

CARVALHO, J. A. de et al. Andragogia: Considerações sobre a Aprendizagem do Adulto. Revista Eletrônica do Mestrado Profissional em Ensino de Ciências da Saúde e do Ambiente – REMPEC – Ensino, Saúde e Ambiente, v.3, n. 1, p. 78-90, 2010.

CYRINO, L. Pirâmide de Bird e a sua teoria. Manutenção em Foco, 2017. Disponível em: https://www.manutencaoemfoco.com.br/piramide-de-bird/ Acesso em: 4 mai. 2022.

DUPONT SUSTAINABLE SOLUTIONS. STOP® for Healthcare Observation Checklist. DuPont Sustainable Solutions, 2021. Disponível em: https://www.dsslearning.com/stop-for-healthcare-observation-checklist/STOPHT/. Acesso em: 4 mai. 2022.

EHI, A. Chronic Unease: A Sign of a Good Safety Culture. SPE Nigeria Annual International Conference and Exhibition – OnePetro, 2014.

GADDIS, S. Building a Desired Safety Culture–Controlling Loss-Producing Variability. ASSE Professional Development Conference and Exposition – OnePetro, 2011.

GADDIS, S. Improving Safety Culture? Developing Laser Focused Safety Vision. ASSE Professional Development Conference and Exposition – OnePetro, 2012.

GARCIA, J. Avaliação e aprendizagem na educação superior. Estudos em Avaliação Educacional, v. 20, n. 43, p. 201-213, 2009.

HALVORSEN, H; LILAND, S. A.; MIDDELTHON, R. Safety Culture Change-A Norway Case Study. SPE International Health, Safety & Environment Conference – OnePetro, 2006.

HARRIS, W. L. Validating a Tool to Measure Safety Culture. SPE E&P Health, Safety, Security and Environmental Conference-Americas – OnePetro, 2015.

LAWRIE, G. Developing a Safety Culture Should Start with Children. SPE International Conference on Health, Safety and Environment in Oil and Gas Exploration and Production – OnePetro, 2002.

LEVY, J. et al. Evolution of the offshore drilling safety culture. International Petroleum Technology Conference – OnePetro, 2005.

NESA, P. C.; HADIKUSUMO, I. S. Building Process Safety Culture-A Practical Implementation. SPE Asia Pacific Health, Safety, Security, Environment and Social Responsibility Conference – OnePetro, 2017.

PORFÍRIO, F. Cultura. Brasil Escola, 2021. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/cultura. Acesso em: 4 mai. 2022.

ROBERTS, S. Assessing and Developing Your Safety Culture. ASSE Professional Development Conference and Exposition – OnePetro, 2012.

SANTOS, A. Acidente de trabalho: Brasil é 2º país do G20 em mortalidade de trabalhadores. Contábeis, 2021. Disponível em: https://www.contabeis.comd.br/noticias/46959/acidente-de-trabalho-brasil-e-2o-pais-do-g20-em-mortalidade-de-trabalhadores/. Acesso em: 4 mai. 2022.

SIMON, S. I. Achieving A World-Class Safety Culture. ASSE Professional Development Conference and Exposition – OnePetro, 2002.

SPADACCINI, D.; ROBINSON, S. B. Practical Application of Safety Cultures. E&P Environmental and Safety Conference – OnePetro, 2007.

USP. Atos e condições inseguras. Comissão Interna de Prevenção de Acidentes USP, 2018. Disponível em: http://www.ccb.usp.br/arquivos/cipa/1520000135_boletimcipaavisa102janeiro2018.pdf. Acesso em: 4 mai. 2022.

WALDHELM NETO, N. Curva de Bradley: O que é, mitos, como ajuda melhorar as ações de SST? Segurança do Trabalho NWN, 2021. Disponível em: https://segurancadotrabalhonwn.com/curva-de-bradley/. Acesso em: 4 mai. 2022.

Graduado em Engenharia de Petróleo pela Universidade Estácio de Sá (UNESA), e Graduado em Tecnologia Mecânica com ênfase em Automação Industrial pelo CEFET/RJ. Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade de Taubaté (UNITAU), MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), MBA em Gestão de Projetos pela Fundação de apoio ao CEFET/RJ, Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho pela Universidade Candido Mendes (UCAM), Especialista em Engenharia de Petróleo pela Universidade Estácio de Sá (UNESA). ORCID: 0000-0002-6647-3914.

Orientadora. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Taubaté, UNITAU, com pós-graduação em Administração de Marketing e Engenharia de Segurança do Trabalho pela Escola Politécnica de Pernambuco. Mestre em Gestão de Desenvolvimento Regional pela UNITAU e doutora em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP. ORCID: 0000-0001-8082-5763.

 




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quarta-feira, 28 de junho de 2023

 




 

CULTURA NA MITIGAÇÃO DE RISCO DE SEGURANÇA E SAÚDE OCUPACIONAL:

UM ESTUDO PILOTO DE SEGURANÇA EM ELETRICIDADE

 

ARTIGO ORIGINAL

 

RESUMO

 

Esforços têm sido feitos há anos para minimizar os riscos de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), mas os registros de lesões continuam sendo um motivo constante de preocupações em todo o mundo. Muitas empresas frequentemente implementam a tecnologia como uma hierarquia administrativa de controle. No entanto, as tecnologias também podem influenciar ativamente as práticas seguras no nível gerencial para o administrativo. Esta pesquisa examina os riscos de segurança elétrica na construção civil, como base para o estudo da viabilidade do uso de tecnologia destinada à integração da cultura de segurança no nível administrativo de mitigação de riscos de SST. É introduzido o conceito “habitus” (hábito), que sugere uma possibilidade para o estabelecimento de uma cultura que aumente o desempenho de segurança dos trabalhadores e se integre às suas práticas por meio da tecnologia da informação de ponta. Um aplicativo protótipo para treinamento em SST baseado em tecnologia de Realidade Virtual Móvel (MVR) é demonstrado para ajudar a estabelecer hábitos nas práticas diárias dos trabalhadores em uma empresa do ramo estudado e, em última análise, mitigar os riscos de SST no nível administrativo de projetos de construção. Embora seja um estudo piloto em segurança elétrica, sua aplicação não se limita a esta área e é escalável para outros riscos de SST.

Palavras-chave: Segurança do Trabalho, Saúde Ocupacional, Segurança Elétrica, Gestão de Riscos.

 

1. INTRODUÇÃO

 

Componente chave da gestão de riscos para a indústria é a área de Segurança e Daúde no Trabalho - SST. Esforços relevantes têm sido feitos há anos para minimizar os riscos, mas os registros de lesões relacionadas a SST, como lesões elétricas e outras fatalidades na construção civil, continuam sendo um motivo constante de preocupações em todo o mundo. De acordo com a Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos, o Bureau of Labor Statistics - BLS, a indústria de construção no país teve uma participação desproporcional nas estatísticas de eletrocussão (Figura 1). Entre 2003 e 2011, o setor de construção civil dos EUA contratou aproximadamente 5,05% de toda a força de trabalho, mas esteve envolvido em 47,85% das lesões elétricas fatais. Em 2011, a taxa de eletrocussão na construção nos EUA foi de 12,2 por milhão de trabalhadores da construção em tempo integral, quase sete vezes a média para toda a indústria.

 

Figura 1. Participação da Construção Civil nos EUA em Eletrocussão e Emprego, 2003–2011

 

Fonte: Bureau of Labor Statistics dos EUA.

 

Pesquisas anteriores tentaram fornecer uma compreensão sobre segurança e saúde no trabalho na construção (CYRAS e JARAS, 1996) e minimizar os perigos por meio da gestão de riscos. Esta apresenta um conceito de reconhecimento e controle de risco com antecedência, que inclui quatro processos principais: identificação, avaliação, mitigação e prevenção de risco (ZAVADSKAS et al., 2010). Destes processos, a ocorrência de risco tem sido considerada uma consequência e não uma causa após a ação ou decisão que resulta em um ou mais resultados negativos não intencionais (STRAUCH, 2002). A mitigação de riscos (ações e medidas aplicadas para reduzir a probabilidade de ocorrência de um evento indesejável e seus efeitos) é um passo preliminar para a ocorrência do risco e sua consequência em termos de gestão de risco. No entanto, a maioria das pesquisas existentes se concentra na avaliação de riscos e poucas se concentram nas técnicas de mitigação, especialmente na segurança da construção civil (JANICAK, 2008).

Muitas empresas implementam sistemas como técnicas de mitigação de riscos em um canteiro de obras. Esses sistemas oferecem a capacidade de influenciar ativamente as práticas seguras no nível gerencial, parte de uma hierarquia administrativa de controle. Assim, a presente pesquisa examina os riscos de segurança elétrica na indústria de construção civil, como base para o estudo da viabilidade do uso de tecnologia destinada à integração da cultura de segurança no nível administrativo de mitigação de riscos de SST. Diferente de sistemas puramente técnicos como os administrativos, esta pesquisa tem o objetivo de apresentar uma abordagem inovadora de sistemas gerenciais para mitigação de riscos de SST na construção civil. Introduz o conceito de “habitus” (hábito) do trabalhador, um tipo de mudança cultural que pode aumentar o desempenho de segurança e se integra às práticas relacionadas a SST por meio de tecnologia da informação de ponta. Um aplicativo protótipo para treinamento em SST baseado em tecnologia de Realidade Virtual Móvel (Mobile Virtual Reality – MVR) é demonstrado para ajudar a estabelecer hábitos nas práticas diárias dos trabalhadores e, em última análise, mitigar os riscos no nível administrativo de projetos de construção.

 

2. RISCO DE SST ELÉTRICA NA CONSTRUÇÃO

2.1 CAUSAS IMEDIATAS DE ELETROCUSSÃO

A pesquisa de Zhao et al. (2014) mostrou a distribuição das causas de eletrocussão na construção civil dos EUA examinando investigações de fatalidades (Figura 2). Entre 1989 e 2011, a principal causa de morte elétrica foi contato direto. A segunda maior causa foi tocar em máquinas como guindastes, caminhões basculantes ou outros veículos em expansão. Outras causas incluem contato com equipamentos de apoio energizados (por exemplo, escadas e andaimes) ou materiais condutores (tubos, postes etc.).

 

Figura 2. Causas imediatas de mortes por eletricidade na construção dos EUA, 1989–2011

 

Fonte: Zhao et al. (2014).

 

As vítimas de eletrocussão incluíam trabalhadores da eletricidade e trabalhadores de outras áreas. As ocupações elétricas incluem eletricistas, instaladores e reparadores de energia elétrica, aprendizes e ajudantes de eletricidade e seus supervisores. Apenas 26% das vítimas de mortes elétricas eram eletricistas, enquanto o restante estava associado a outros ofícios de construção (ZHAO et al., 2014). Portanto, não apenas as ocupações elétricas foram expostas aos riscos elétricos, mas também os trabalhadores de outras funções que precisavam de atenção redobrada sobre os riscos elétricos e a segurança. Também é importante observar que a maioria das electrocussões mencionadas acima teve causas imediatas das quais a indústria tem conhecimento e cujas medidas de prevenção foram documentadas em regulamentos, códigos e até procedimentos diários de segurança. No entanto, uma grande quantidade de trabalhadores da construção em todo o mundo ainda se machuca ou morre anualmente.

 

2.2 COMPORTAMENTOS DO TRABALHADOR

O erro humano tem sido considerado fator chave que contribui para até 80% dos acidentes de trabalho nas indústrias de aviação, petroquímica, saúde, construção civil, mineração e energia nuclear (GARRETT e TEIZER, 2009). Rasmussen (1997) apresentou três tipos de desempenho no trabalho e seus erros associados: baseado em habilidades, baseado em conhecimento e baseado em regras. Reason (2000) combinou os erros baseados em conhecimento e erros baseados em regras em “erros humanos” e, em seguida, acrescentou outras categorias de comportamento de risco em três tipos: erros baseados em habilidades, erros e violações.

O erro baseado em habilidades resulta da capacidade limitada de processamento de informações, incluindo atenção. Os erros geralmente ocorrem quando um indivíduo não tem regras, ou “esquema”, disponíveis para aplicar a uma situação ou aplica de forma errada. Os esquemas são desenvolvidos através da aprendizagem experiencial, que pode ocorrer por meio da exposição repetida a uma situação específica ou por meio de oportunidades de aprendizado oferecidas em programas de treinamento. Além disso, muitos consideram as violações diferentes dos erros por serem intencionais. Como Strauch (2002) resumiu, os erros humanos geralmente envolvem a falha em identificar os perigos envolvidos na conclusão de uma tarefa ou o uso incorreto de equipamentos, enquanto as violações são normalmente relacionadas à falha em seguir procedimentos organizacionais, tais como concluir uma auditoria de segurança no trabalho ou usar equipamento de proteção individual.

Com base nos três tipos de comportamentos de risco dos trabalhadores definidos por Reason (2000), os erros humanos são considerados a principal razão para a maioria dos incidentes de SST. Há várias razões para os erros humanos, sendo o treinamento insuficiente um dos mais significativos. Os trabalhadores podem cometer erros se o treinamento não vier da experiência em lidar com situações desconhecidas ou não forneça uma ampla gama de experiências para entender quando as regras se aplicam, o que leva a interpretações errôneas de uma situação e um má tomada de decisão (MANSEAU e SHIELDS, 2005).

Read et al. (2012) utilizaram uma estrutura de fatores contribuintes para verificar se os erros humanos estão associados à falta de conhecimento, inexperiência na tarefa e deficiências no treinamento. Jaselskis et al. (1996) argumentaram que as práticas inseguras muitas vezes levam a incidentes ou acidentes, uma vez que a execução do trabalho é influenciada pela falta ou menor frequência no treinamento de segurança. Em uma pesquisa com países europeus, Teixeira et al. (2006) concluíram que a formação em SST é necessária para a gestão de projetos de construção civil. Em outras palavras, um sistema de treinamento de segurança adequado poderia reduzir os erros humanos, bem como vários riscos em SST.

 

2.3 PRÁTICAS DE TREINAMENTO DE SEGURANÇA

Os empregadores da construção civil geralmente abordam as práticas de SST para sua força de trabalho como parte da orientação geral de treinamento dentro do programa de segurança das empresas. Muitas delas exigem que os novos trabalhadores participem de treinamentos de no mínimo seis horas para atender NR 18 (Segurança na Construção Civil) e, para os profissionais de elétrica, no mínimo 40 horas para atender a NR 10 (Trabalho com Instalações Elétricas), realizados por profissionais de Segurança e Saúde Ocupacional, com validade de 1 ano.

Nos programas de treinamento padrão, as informações são apresentadas por meio de slides ou do uso de fitas de vídeo, e são reforçadas com apostilas e guias de estudo (ZHAO et al., 2009). Os questionários também são comumente usados e incluídos em um pacote de treinamento para garantir a compreensão do material abordado pelos treinandos.

Fora da sala de aula, o treinamento participativo (ou seja, módulos de aprendizado ativo) tem sido amplamente aceito como uma das abordagens de treinamento mais eficazes. Como ressaltado por Goldenhar et al. (2001), a melhor maneira de treinar e aprender é fazer a coisa real e simular as tarefas reais para obter experiência. No entanto, a maioria das práticas atuais de treinamento em SST não está em um formato tão participativo e, como resultado, pode ser menos eficaz. Devido ao ambiente de trabalho perigoso da eletricidade, a segurança nesta área profissional apresenta um problema especialmente difícil, pois alguns riscos de treinamento no trabalho não podem permitir que os alunos ensaiem tarefas elétricas em uma situação real.

 

2.4 DESAFIOS PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL

A construção civil é uma indústria baseada em projetos. Cada projeto é único e requer que partes interessadas independentes colaborem em vários estágios durante o ciclo de vida do projeto. Cada projeto de construção civil pode ser considerado como uma organização multidisciplinar que pode não continuar a trabalhar em conjunto uma vez que o projeto esteja concluído (KAMARA et al., 2002). Além disso, a contratação elétrica é altamente conectada por natureza, o que significa que cada parte interessada afeta e é altamente dependente de upstream[2] e downstream[3] de trabalho para orçamento, cronograma e segurança (HANNA e HADDAD, 2009). Essa natureza única de construção, fragmentação pesada e estrutura conectiva tornam a construção civil um processo significativamente complexo. Além disso, a construção é trabalhosa, com alta rotatividade de mão de obra, o que pode tornar o gerenciamento de riscos mais difícil do que em outros setores.

Essas características muitas vezes restringem a capacidade das plataformas e formatos tradicionais de treinamento em SST de serem eficazes. Em primeiro lugar, enquanto a indústria manufatureira tem instalações fixas, os trabalhadores da construção estão continuamente se movendo entre diferentes canteiros de obras. Torna-se difícil, então, que seja fornecido um local de treinamento exclusivo para cada tipo de risco. Em segundo lugar, em comparação com as ações comumente repetidas das linhas de produção, todo projeto de construção é insubstituível e restringe o trabalho que muitas vezes é altamente específico. Em terceiro lugar, treinar trabalhadores não é fácil em uma indústria caracterizada por pequenas empresas com baixas despesas gerais e alta mobilidade de funcionários. Por exemplo, nos Estados Unidos, 92% das 1,25 milhão de empresas de construção têm menos de 20 pessoas.

 

3. MITIGAÇÃO DE RISCOS DE SST: UMA INOVAÇÃO COM CULTURA DE SEGURANÇA

A literatura sugere que procedimentos inseguros e violações por parte dos trabalhadores, como esquecimento, negligência e imprudência, são as principais causas que levam a lesões de SST (KLETZ, 2001). Há oportunidade de reduzir comportamentos inseguros por meio de treinamento adequado e eficaz, mesmo que não possam ser eliminados completamente. Goldenhar et al. (2001) destacaram que a maneira mais direta de mudar as estatísticas de erros humanos era por meio do treinamento eficaz dos trabalhadores. Neville (1998) sugeriu que programas de treinamento eficazes poderiam ajudar a economizar grandes custos prevenindo acidentes. O treinamento eficaz não apenas salva vidas, mas também elimina os custos indiretos extras associados a investigações de acidentes, taxas de seguro, tempo de inatividade de equipamentos e reparos e perdas de produtividade.

A natureza da construção civil baseada em projetos introduz barreiras adicionais à gestão de riscos de SST, exigindo inovações que proporcionem benefícios a toda a indústria em oposição a riscos específicos para locais individuais. Toole (1998, p. 2) definiu o processo de inovação como “aplicação de tecnologia que é nova para uma organização e que melhora significativamente o projeto e a construção, diminuindo o custo, aumentando o desempenho e melhorando o processo de negócios”. Gann e Salter (2000) descobriram que as empresas baseadas em projetos dependem da combinação de conhecimentos técnicos de outras organizações para fornecer suas próprias capacidades técnicas, geralmente em processos pontuais.

Nos negócios de construção civil, as inovações de SST estão frequentemente relacionadas à engenharia ergonômica para melhorar a saúde e aumentar a segurança. Com o tempo, os empreiteiros procuraram instituições de ensino para fornecer um quadro de funcionários de construção civil qualificados para trazer novas tecnologias de construção para a força de trabalho. Além disso, a indústria da construção está particularmente ansiosa em buscar novas tecnologias para controlar os riscos na variabilidade do local, natureza pontual, longevidade das garantias e outras incertezas inerentes ao ambiente construído (MCCOY, 2009). Até o momento, a maioria dos controles de segurança utiliza inovações diretamente aplicadas à melhoria da segurança em um “caminho técnico” (Zhao et al., 2014): por exemplo, a melhoria dos Equipamentos de Proteção Individual - EPI.

No entanto, inovações de controle desse “caminho técnico” (como EPI) só podem impactar a parte interessada essencial de SST – pessoal – de maneira passiva (Figura 3), o que pode diminuir cumulativamente a eficácia da adoção de tecnologia inovadora na mitigação de riscos de SST. A rápida adoção de tecnologias ergonômicas, de saúde e segurança, como cintos de segurança, pode até incomodar, impedir e retardar os trabalhadores individualmente, fazendo com que resistam à inovação. Em contraste, os controles administrativos que são inovações de “caminho gerencial” (ZHAO et al., 2014) relacionam a tecnologia de forma indireta, mas também podem impactar a adoção de SST pelos trabalhadores de maneira ativa. Em outras palavras, apesar da adoção direta de novas tecnologias, a inovação cultural é uma força poderosa que pode moldar a eficácia geral do projeto e o sucesso de longo prazo da empresa de construção (YITMEN, 2007). A cultura de segurança influência de forma inconsciente e consistente todos os aspectos da vida organizacional, como a atitude dos trabalhadores em relação à segurança e seu processo de decisão durante importantes atividades de SST na construção.

 

Figura 3. Caminho gerencial para a mitigação do risco de SST

 

Fonte: Zhao et al. (2014).

 

A literatura sugere que é um desafio integrar as novas tecnologias à cultura, um conjunto de crenças, atitudes e valores. No entanto, torna-se possível quando cultura está associada ao conceito de “habitus”. Nessa perspectiva, a cultura não é considerada um conjunto de crenças e valores, mas o “todo o modo de vida” que inclui práticas e rotinas (MANSEAU e SHIELDS, 2005). Bourdieu (2003) referiu-se a esse conjunto de predisposições que orientam as improvisações nas rotinas diárias como “habitus” ou saberes práticos como rotinas repetidas. Um ponto forte na compreensão da cultura como “habitus” é que as rotinas podem ser observadas e documentadas, enquanto valores e crenças devem ser inferidos, tornando-os menos passíveis de pesquisa. Resulta-se que, em vez de formular o controle de risco como uma quebra de hábito, pode ser mais útil conceber a mitigação de risco de SST como um processo. Este permitirá que as pessoas demonstrem sua própria propensão à adoção (processo de decisão-adoção) de forma adequada.

Assim, o “habitus”, conjunto de rotinas práticas e disposições para determinadas formas de resolução de problemas, é sugerido como uma abordagem inovadora para a gestão de riscos de SST integrada à cultura de segurança. Combinar a mitigação de risco como um processo contínuo de controles, em vez de um grupo de pontos de verificação estáticos de controle, com um processo de treinamento de segurança baseado em “habitus” pode não apenas mitigar o risco de SST, mas também complementar a produtividade e o crescimento sustentável da empresa.

 

4. UM PROTÓTIPO DE APLICAÇÃO EM TREINAMENTO DE SEGURANÇA ELÉTRICA

A seção a seguir demonstra uma aplicação do conceito de “habitus” para treinamento de segurança elétrica por meio de um protótipo de realidade virtual. Desenvolvedores de empresas ligadas a equipamentos móveis, como celulares e tablets, criaram aplicativos usando a tecnologia de Realidade Virtual Móvel (MVR) destinado a aumentar ainda mais a probabilidade de adoção para a natureza mutável da indústria.

 

4.1. TECNOLOGIA DE REALIDADE VIRTUAL MÓVEL

O MVR é uma aplicação da simulação de Realidade Virtual (VR) em dispositivos móveis/portáteis conectados à tecnologia de nuvem para usuários finais. Ele permite a simulação segura de eventos da vida real em um ambiente digital que poderia ser muito perigoso ou caro para se criar (HALLER et al., 1999). A realidade virtual é descrita como um mundo tridimensional a partir de uma visão em primeira pessoa que está sob controle em tempo real do usuário (Bowman et al., 2005). Também tem a capacidade de criar um exercício de aprendizagem baseado em problemas que reproduz o ambiente de trabalho real do grupo usado como piloto, os trainees (MCALPINE e STOTHARD, 2003).

Os programas de treinamento via VR oferecem uma experiência de aprendizado interativa, ativa e cognitiva para o usuário (MUNRO et al., 2002; STANNEY e ZYDA, 2002). Como resultado, eles são frequentemente usados no lugar de treinamento no local de trabalho ou simulação em tamanho real. Aplicado ao setor de construção, o MVR supera as barreiras de tempo e localização para os trabalhadores e oferece mais flexibilidade de acesso.

O MVR também beneficia os trainees com um ambiente de treinamento participativo. Esse treinamento traz um aspecto da vida real em um cenário “isso pode acontecer com você” e permite que os treinados relacionem condições e regulamentos com situações da vida real e uma importância de vida ou morte (ZHAO et al., 2009). O melhor cenário é quando as pessoas não precisam pensar conscientemente a fim de seguir os procedimentos de segurança porque isso é uma segunda natureza para elas (TRYBUS, 2008). Além disso, o MVR oferece aos trainees a capacidade de experimentar sem se preocupar com as repercussões do mundo real e a capacidade de aprender fazendo. Com um programa MVR, o usuário controla os objetos e combina isso com informações e testes posteriores baseados em tarefas, criando assim uma experiência interativa e de aprendizado ativo.

Mais importante ainda, a simulação MVR pode contribuir para a construção de uma cultura de segurança em termos de rotinas práticas seguras. Por meio dessa tecnologia, os programas de treinamento podem permitir que os trabalhadores da construção civil estejam familiarizados com os riscos comuns, incluindo riscos elétricos perigosos, e simular práticas de prevenção relevantes sem repercussões reais de lesões. Isso pode não apenas melhorar a conscientização dos trainees sobre os riscos potenciais em um ambiente de trabalho baseado na realidade, mas também influenciar inconscientemente os comportamentos de rotina como uma segunda natureza, o que levará em grande parte à cultura de segurança.

 

4.2. DEMONSTRAÇÃO DO PROTÓTIPO

Foi desenvolvido um protótipo do aplicativo de treinamento em SST integrado ao MVR, na tentativa de transferir as práticas seguras dos trainees em um mundo virtual para suas rotinas em situações reais. Espera-se que os trainees estejam preparados para suas futuras tarefas elétricas, ensaiando em um ambiente virtual. O objetivo do ensaio repetido não é apenas aprimorar as habilidades profissionais dos treinados, mas também, mais importante, ajudar a construir seu “habitus” para práticas seguras.

O conteúdo do treinamento compreendeu uma variedade de cenários de construção civil nos quais os acidentes elétricos ocorrem frequentemente. O cenário designado foi baseado nos resultados do estudo de Zhao et al. (2014) que, usando métodos estatísticos, generalizou as características típicas da circunstância de eletrocussão na indústria de construção civil. O protótipo incorporou essas características em um cenário que era um canteiro de obras de estradas com linhas aéreas cercadas (Figura 4). O desenvolvimento do cenário incluiu dois aspectos principais: modelagem do ambiente e codificação do livro de históricos (de riscos, incidentes e acidentes). A modelagem do ambiente simulava objetos e personagens relacionados à construção civil, enquanto a codificação do livro de históricos ligava esses objetos e personagens a riscos elétricos ocultos. A modelagem e codificação foram concluídas usando o pacote Autodesk 3DS Max e Torque 3D.

 

Figura 4. Desenvolvimento de aplicativo protótipo

 

Fonte: Zhao et al. (2014).

 

Dentro do protótipo, um exemplo de rotina de prática segura foi realizar uma pesquisa no local para possíveis riscos antes de iniciar os trabalhos, pois essa medida de controle de risco está listada entre as cinco principais sugestões para evitar eletrocussão pelo Ministério do Trabalho e Emprego. As investigações de acidentes mostram que este procedimento é fundamental para que os trabalhadores obtenham conscientização sobre os riscos, mas muitas vezes foi esquecido na prática real. O protótipo simulou várias ações de levantamento do local, algumas das quais eram frequentemente ignoradas pelos trabalhadores em tarefas reais. Por exemplo, os trabalhadores precisam verificar se as linhas de energia aéreas estão energizadas ou verificar a distância segura entre a máquina e a fonte de eletricidade.

O aplicativo simulou essas ações de rotina no cenário prototipado, no qual os usuários devem concluir os procedimentos necessários de pesquisa do local, detectando e eliminando os perigos. Seguindo as instruções, o usuário também deve repetir a tarefa de levantamento de perigos em intervalos específicos. A repetição foi projetada com base no mecanismo de memória e ajuda os usuários a promover as melhores práticas de segurança na construção civil em sua mente. Se o usuário falhar, uma animação de falha aparecerá e ilustrará o resultado de possíveis lesões.

A tecnologia MVR supera as limitações de tempo e local do treinamento e facilita os ensaios obrigatórios e eficazes no mundo virtual. Como resultado, ajudará a estabelecer o conceito de mitigação de riscos de segurança como “habitus” na mente dos trabalhadores e a colocar o “habitus” no contexto das práticas do mundo real. Dessa forma, o conhecimento e a conscientização podem ser transferidos para as rotinas práticas de SST dos trabalhadores – a cultura de segurança.

Embora o aplicativo pretenda ser acessível online, as configurações de servidor e rede ainda não foram concluídas para o protótipo. Enquanto o protótipo atual tem acesso restrito para o processo de desenvolvimento, o aplicativo final estará disponível para download na internet e utilização sem fio. Ainda assim, recursos portáteis são necessários para se adequar à natureza fragmentada dos projetos de construção e à alta mobilidade dos trabalhadores da construção civil. Portanto, a versão atual do protótipo está disponível no Tablet (Figura 5), mas será estendida para suportar as plataformas iOS e Android.

 

Fig. 5. Interface de protótipo no Tablet

 

Fonte: O autor.

 

5. CONCLUSÃO

Em uma organização, Segurança e Saúde no Trabalho (SST) é o componente chave da gestão de riscos para a indústria. Sabendo disso, a tecnologia que já vem sendo empregada frequentemente para diminuir e até mesmo mitigar os riscos pode ser utilizada para influenciar ativamente as práticas de segurança dos trabalhadores em tempo real e de forma mais ativa. Situações de perigo e consequentemente os acidentes, comuns do dia a dia das operações, são trazidos a um ambiente virtual de simulação, o que tende a proporcionar uma reflexão maior por parte dos colaboradores e resultados mais expressivos.

Esta pesquisa examinou os riscos de segurança elétrica na construção civil e analisou a possibilidade de integrar o “habitus” de segurança na mitigação de riscos de SST por meio do uso de um aplicativo de realidade virtual móvel. A análise descobriu, de acordo com as referências, que uma grande parte das fatalidades e lesões de SST está relacionada a atos inseguros dos trabalhadores e à falta de conscientização sobre os riscos de SST. A formação (treinamento) acaba por ser uma abordagem eficaz e direta para resolver este problema, mas, em situações da vida real, os programas de formação em SST não são tão eficazes como poderiam ser. Esta falta de eficácia pode ser atribuída ao conteúdo utilizado para treinamento, bem como à natureza da indústria da construção civil.

Assim, foi apresentada uma abordagem inovadora para a mitigação de riscos de SST integrada à cultura de segurança. Esta pode beneficiar diretamente o desempenho de segurança dos trabalhadores e também ser incorporada às práticas de segurança dos trabalhadores por meio de tecnologia da informação de ponta com o conceito de “habitus”. Um aplicativo protótipo para treinamento em SST que utilizou tecnologia de Realidade Virtual Móvel (MVR) foi demonstrado para ajudar a estabelecer a cultura de segurança nas práticas diárias dos trabalhadores e, finalmente, mitigar os riscos de SST em projetos de construção.

Importante observar que, embora esta aplicação de mitigação de riscos de SST seja demonstrada em um estudo piloto sobre segurança elétrica, ela não se limita necessariamente a esse setor da indústria e pode ser adaptada a outros riscos de SST. Enquanto isso, embora esta discussão do protótipo represente apenas uma validação preliminar para a aplicação com utilidade de MVR, existem muitas limitações na avaliação, como um pequeno conjunto de amostragem e falta de grupo de controle para comparar a eficácia do treinamento. Trabalhos futuros validarão ainda mais o desempenho do aplicativo no campo da indústria da construção com empresas reais.

 

REFERÊNCIAS

 

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APÊNDICE- NOTA DE RODAPÉ

2. Etapas do fluxo de trabalho que tem o objetivo de amadurecer e validar ideias antes de aplicá-las no mundo real.

3. Etapas seguintes do fluxo de trabalho a partir de itens gerados no upstream.

Mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do ABC-UFABC. MBA em Engenharia e Gestão da Manufatura e Manutenção pela Universidade São Paulo-USP. MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas-FGV. Pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho pela Faculdade Educamais. Graduação em Engenharia Elétrica pelo Centro Universitário da FEI. ORCID: 0000-0001-7667-0973.

 

 

 

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DEMOLIÇÃO:

CONHEÇA AS CAUSAS E TIPOS

 



O ato de demolir não parece ser lá muito simples, não é? Isso porque o procedimento exige técnica e o manuseio correto dos equipamentos da obra, caso contrário, pode resultar em graves acidentes. Hoje você vai conhecer os diferentes métodos de demolição, causas, importância e muito mais!

 

Razões que causam uma demolição

Demolição significa retirar uma estrutura de um local para viabilizar novos trabalhos no mesmo espaço. Neste procedimento são tirados entulhos e outros resíduos para limpar o lugar. Somente assim é possível adequá-lo para novos fins.

Além desta razão, a demolição também é tida como uma medida de segurança, pois, quando uma estrutura apresenta riscos de desabamento, é com esse procedimento que se derruba uma construção de forma segura. Construções com muitos anos de utilização e que precisam de adaptações, reforço estrutural, alterações no projeto e até erros de projeto, também são causas de demolição.

A sua importância se deve a correção desses fatores e muitos outros, pois quando não corrigidos, ocasionam em edifícios desabados, desastres ambientais e riscos de vida.

Por causa disso, é preciso calcular como e onde quebrar para que não haja surpresas e acidentes, independentemente do tamanho da estrutura. Medidas que exigem serem feitas por profissionais da área. Como este serviço é utilizado para diversos fins é preciso identificar a melhor técnica a ser introduzida, a fim de obter êxito na atividade.

 

Tipos de demolição e finalidades

O método utilizado para demolir uma casa não é o mesmo usado para demolir uma empresa, por exemplo. Por isso, vamos entender os três tipos de demolição e onde se dão suas aplicações.

 

Demolição por implosão

Esta técnica consiste no uso de explosivos para destruir a base da estrutura. É usada para demolir edifícios, pontes e outras estruturas, principalmente em centros urbanos.

 

Demolição mecânica

Neste tipo de demolição são usados diferentes máquinas e equipamentos como guindastes, escavadeiras e mini escavadeira para auxiliar na derrubada completa ou parcial do local. Durante o procedimento são usadas pás e retroescavadeira para auxiliar na retirada do entulho. Assim como os demais procedimentos este exige mão de obra especializada.

 

Demolição manual

Em comparação com os outros tipos de demolição, a manual é a que mais leva tempo de conclusão e exige mão de obra. Neste procedimento são usadas ferramentas manuais e permite aos técnicos maior controle da atividade. Indicada para demolições de pequenos portes, e que não suportam o peso de grandes equipamentos, também é conhecida como demolição sustentável, porque permite reaproveitar partes de resíduos, quando em outras técnicas isso não seria possível, devido ao nível alto de destruição.

 

Demolição: um procedimento seguro

Embora muitos ainda relacionam a demolição com desastres, feita de forma segura e bem planejada ela é uma técnica muito eficaz de resolver irregularidades em lugares.

Mas para isso, é preciso contar com empresas sérias do ramo da construção civil para exercer esta tarefa. A especialização e mão de obra qualificada são obrigatórias e darão garantia ao procedimento.

Agora se você busca equipamentos de qualidade para te auxiliar em um desses processos. Estamos presentes em 6 estados brasileiros ajudando grandes obras a serem concluídas com sucesso. Acesse nosso site e confira nosso catálogo completo de equipamentos de movimentação de terra para compra e aluguel.

 

 

 

 

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