domingo, 15 de maio de 2022

 

 

 

 

CONSTITUIR O GRUPO DE INVESTIGAÇÃO



Grupo de investigação – Idealmente, uma investigação deve ser conduzida por alguém que seja especialista na técnica de investigação, em segurança do trabalho, com bom conhecimento do processo, dos procedimentos e das pessoas e com facilidade de relacionamento na empresa em todas as áreas e níveis.

 

Continuando a sequência do ritual de investigação de incidentes:

 

Figura 1 – O ritual de aprendizado com o incidente

 

A investigação de um incidente é um trabalho de equipe. A eficiência do trabalho em equipe é resultado, não só do conhecimento técnico e das habilidades humanas individuais, mas sobretudo, da integração destas pessoas, ou seja, da sinergia na condução da investigação. Infelizmente, pessoas que reúnem todas essas características são difíceis de serem encontradas e disponíveis nas empresas. Portanto, supervisores, gerentes e empregados de um modo geral devem estar preparados para dar a sua contribuição na investigação de incidentes, sem esquecer de procurar reunir no grupo de investigação as competências necessárias.

 

O trabalho em grupo pode facilitar ou dificultar o processo de investigação do incidente, dependendo da habilidade dos integrantes em atuar em equipe. Portanto, o equilíbrio entre as competências, o número de pessoas do grupo e o preparo destas pessoas para atuarem em grupo é um primeiro cuidado que se deve ter ao constituir grupos para investigação de um incidente.

 

Algumas organizações definem que a investigação seja conduzida por pessoas treinadas e aptas para tal tarefa, buscando integrar ao grupo pessoas de níveis diferentes, incluindo representantes de empregados. A legislação brasileira faz referência à participação do representante dos empregados, através da CIPA. É importante lembrar que existem competências essenciais na condução de uma investigação de incidentes e que as pessoas indicadas devem reunir essas competências. Atender à legislação é importante, mas isso não deve se sobrepor à adequação e á eficiência da equipe constituída, sob pena de o grupo não ser capaz de realizar uma boa investigação.

 



O trabalho em grupo pode facilitar ou dificultar o processo de investigação do incidente, dependendo da habilidade dos integrantes em atuar em equipe.

 

É certo que a investigação do incidente constitui uma boa oportunidade de treinamento para um novo membro da equipe, o qual pode ser incluído como “estagiário”.

 

Esta é uma prática muito salutar de disseminação da cultura de segurança dentro da organização. Leia mais sobre cultura de segurança em nosso artigo:

 

“Cultura de segurança: como promover uma mudança organizacional“

 

Há uma questão que naturalmente surge quando da montagem de uma equipe desta natureza: – Deve o supervisor, onde o evento indesejado ocorreu, ser parte da equipe de investigação? É importante refletir sobre esta questão sem preconceitos pois existem vantagens e desvantagens tanto de inclui-lo quanto de não o incluir.

 

A vantagem em ter o supervisor da área onde ocorreu o incidente como parte da equipe de investigação é que esta pessoa conhece melhor o trabalho e as outras pessoas envolvidas; além do mais, ele tem autoridade para adotar de imediato as ações julgadas pertinentes. O contra-argumento relativo à participação do supervisor reside no fato de que ele pode perfeitamente ocultar suas falhas e erros associados àquela atividade.

 

Enquanto os incidentes forem investigados apenas para cumprir aspectos legais ou normativos, todo tipo de boicote poderá ser esperado. É preciso que a organização, representada por seus dirigentes (proprietário, presidente, diretores, alta e média gerência), não apenas “digam” que é preciso fazer gestão de segurança, mas que estas pessoas realmente demonstrem que isso é importante e, a melhor demonstração é a participação destes níveis nas investigações.

 

Uma boa prática a ser adotada é que o grupo de investigação seja selecionado de acordo com a severidade potencial do incidente e não a severidade real. É comum a ocorrência de incidentes cuja severidade real seja pequena ou mesmo insignificante, com ausência de lesão ou dano, mas que, no entanto, tinha potencial para causar uma fatalidade, a qual não ocorreu em função de tempo, espaço e oportunismo. Eventos com severidade potencial alta devem ser investigados com o mesmo rigor e profundidade que aqueles que geraram de fato consequências neste nível de severidade.

 

Quanto maior é o grau de severidade potencial de uma ocorrência, mais importante é dissecar o evento e entender o que ocorreu, como ocorreu e o que pode ser feito para prevenir a sua recorrência.

 

A norma internacional OHSAS 18001:2007 no item 4.4.1 declara como requisito que “Todos aqueles com responsabilidades gerenciais na organização devem demonstrar seu compromisso com a melhoria contínua do desempenho da SSO”. No livro “Acidentes Industriais Ampliados” editado em 2000 pela Editora Fio Cruz, os autores registram que “…. a forma como um acidente industrial ocorre e é analisado pelos técnicos e instituições envolvidas expressa também o valor ético, moral, social e econômico atribuído à vida dos trabalhadores e cidadãos em uma sociedade”.

 

Por estas razões, constitui demonstração de maturidade em segurança, que o grupo de investigação de incidentes seja constituído de acordo com a severidade potencial das ocorrências a serem investigadas e com a participação escalonada dos níveis decisórios da empresa (supervisores, gerentes médios, alta gerência, diretores) de tal maneira que quanto mais seria é a consequência potencial do evento, maiores serão os níveis hierárquicos dos envolvidos diretamente na investigação.

 

No entanto, deve-se definir a equipe mínima para compor um grupo de investigação de incidentes o qual deve incluir, pelo menos:

 

ü Um líder com conhecimento e experiência no ritual de uma investigação;

ü Um representante do SESMT – Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho da empresa;

ü Um representante da área onde ocorreu o evento a ser investigado;

ü Um representante da CIPA, quando ela for constituída.

 

Em função da natureza, da extensão e das consequências do evento a ser investigado, pode ser requerida a participação de representantes da área jurídica da empresa e mesmo de entidades de classe. No caso de incidentes com empregados de empresas contratadas, é recomendável a participação no grupo de investigação de um preposto da empresa contratada. Adicionalmente, pode-se acrescentar ao grupo algum especialista qualificado na operação na qual o evento indesejado ocorreu.

 

Embora seja parte do planejamento da investigação, a definição da ferramenta de análise a ser utilizada para a identificação das causas do incidente, quando da seleção do grupo de investigação, deve-se assegurar que pelo menos um dos membros do grupo de investigação conheça e domine o uso da ferramenta de análise a ser utilizada na investigação.

 

É importante considerar, na constituição do grupo, o número de pessoas. Grupos muito numerosos tendem a ser pouco produtivos. Por isso, já é uma pratica, a adoção de mais de um grupo na investigação de incidentes, em casos de investigações de incidentes maiores, com consequências catastróficas. Nestes casos, os grupos que trabalham costumam ter membros comuns para facilitar as interfaces entre eles; cada um dos grupos tem o seu líder e um dos líderes de grupo costuma também ser o líder geral dos grupos. Deste modo eles podem ser alocados em tarefas e/ou etapas diferentes do ritual de investigação. Algumas empresas já incluem esses requisitos nos seus procedimentos internos.

 

Na prática, a constituição do grupo tem início com a indicação pela administração ou pelo SESMT do Investigador Líder e este se encarrega de completar o grupo de acordo com os critérios internos da empresa. O processo que representa esta etapa do ritual da investigação é mostrado na figura 1

 

Figura 1– Processo de constituição do grupo de investigação

 

Algumas empresas têm preferido utilizar mais comumente o Investigador líder e, às vezes, todo o grupo de investigação externos, especificamente na condução de investigação de eventos mais sérios pelas seguintes razões:

 

Pessoas externas à organização tendem a ter mais credibilidade pela percepção de independência, em relação à gestão da empresa;

 

Ao buscar uma pessoa ou um grupo externo, pode-se selecionar especialistas em investigação e uso de ferramentas melhor preparados que pessoas da própria organização, pois fazem isso com mais frequência;

 

Pessoas externas tendem a manter o sigilo sobre os fatos e a própria investigação, mesmo porque normalmente assinam contratos específicos de confidencialidade e, em caso de litígio, costumam ter argumentos mais bem aceitos em função do princípio de independência;

 

Investigadores externos têm dedicação integral, pois estão ali apenas para aquele fim, enquanto os internos precisam dar conta da sua rotina de trabalho e ainda cuidar da investigação;

 

Pelo fato de não estarem envolvidos no gerenciamento interno, eles tendem a ficar mais à vontade para apontar as causas e fazer as recomendações de melhorias.

 

Em se tratando de um ritual e considerando que as ações do aprendizado para com o incidente devem ser registrada, observe os documentos e registros pertinentes a esta etapa, indicados na figura 1.

 

No próximo artigo abordaremos a etapa 4 do ritual de aprendizado para com o incidente, que é o planejamento da investigação do incidente.

 

Autor: Reginaldo Pedreira Lapa
Engenheiro de Minas e de Segurança do Trabalho

 

Fonte: Lapa, Reginaldo Pedreira. Investigação e Análise de Incidentes, Editora Edicon, São Paulo, 2011

 



 

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sábado, 14 de maio de 2022

 

 

 

PLANEJAMENTO DA INVESTIGAÇÃO

 


O planejamento da investigação já começou de fato no processo anterior, quando a ferramenta de análise das causas foi selecionada. Dando sequência ao processo de planejamento, a primeira ação é analisar as evidências coletadas na etapa de ações imediatas, quando se formará uma ideia do que ocorreu. Esta análise servirá também para definir a necessidade de coleta de dados e para distribuir atribuições e responsabilidades entre os membros do grupo durante a investigação.

 

Continuando a sequência do ritual de investigação de incidentes:

 

Figura 1 – O ritual de aprendizado com o incidente

 

Uma visita ao local do evento deve ser planejada para estabelecer o contato formal da equipe de investigação com o pessoal operacional. É importante lembrar que alguns eventos requerem interdição do local por organismos reguladores, de modo que as visitas devem ser planejadas, considerando a necessidade de liberação do local e da operação, quando isto ocorrer.

 

Além disso, nem sempre os membros do grupo de investigação de acidente estão familiarizados com a operação e tarefas nos quais o evento indesejado ocorreu. Assim sendo, informações sobre esse tema devem ser colhidas de modo a preparar a equipe para compreender os fatos e as evidências já disponíveis e, mesmo, para o início da coleta de dados. Leia mais em nosso artigo sobre “Como investigar um acidente de trabalho? ”. 

 

Da mesma forma, o Investigador líder deve estar preocupado com a integridade das pessoas que fazem parte do grupo e, assim sendo, as regras, protocolos, procedimentos de segurança e equipamentos de proteção necessários devem ser elencados, providenciados para a ocasião da visita e mesmo da coleta de dados em campo, os quais fazem parte do planejamento da investigação.

 

É recomendável neste processo que seja elaborado um plano de trabalho, indicando o que fazer, quem será o responsável por cada tarefa da investigação, quais serão os produtos que cada membro deve entregar, as datas limites de entrega, as datas das reuniões de alinhamento de informações e a previsão de conclusão do trabalho de investigação, desde a coleta de dados até o envio do relatório final da investigação.

 

É parte da atribuição do Investigador líder planejar a logística do grupo para o acesso às áreas onde haverá visita e coleta de evidências. O processo de planejamento da investigação é apresentado na figura 1.

 

Figura 1– Processo de planejamento da investigação

 

Em se tratando de um ritual e considerando que as ações do aprendizado para com o incidente devem ser registradas, observe os documentos e registros pertinentes a esta etapa, indicados na figura 1

 

No próximo artigo abordaremos a etapa 5 do ritual de aprendizado para com o incidente –  A coleta de dados para a condução da investigação do incidente.

 

Autor: Reginaldo Pedreira Lapa
Engenheiro de Minas e de Segurança do Trabalho

 

Fonte: Lapa, Reginaldo Pedreira. Investigação e Análise de Incidentes, Editora Edicon, São Paulo, 2011

 

 


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COLETAR DADOS

 

O processo de coletar dados é a etapa do ritual de investigação que vai prover o grupo de investigação de evidências, que auxiliam no entendimento do que ocorreu na deflagração do incidente e de como este se desencadeou.

 

Continuando a sequência do ritual de investigação de incidentes:

 



O ritual de aprendizado com o incidente

A partir deste entendimento é que será possível identificar as causas. As evidências podem ser agrupadas da seguinte maneira:

 

ü Relatos de testemunhas;

ü Fotografias e vídeos obtidos na cena do incidente;

ü Evidências físicas relativas a equipamentos, ferramentas, materiais, instalações;

ü Medições relativas a variáveis de processo e de condições do ambiente;

ü Inspeções e testes em equipamentos, instalações realizadas após o incidente, inclusive em EPI;

ü Documentos e registros, tais como procedimentos, manuais, instruções de operação e de manutenção, relatórios de inspeção, relatórios de manutenção, relatórios de operação, laudos técnicos, diagramas de processo, diagramas elétricos, hidráulicos, diagramas lógicos, provas de qualificação e de capacitação, folhas de especificações, fichas de segurança de produtos químicos, registros de presença, análises de risco, relatórios de investigação de incidentes anteriores, relatórios de auditorias etc.;

ü Se possível, simule a situação e a ocorrência do evento.

 

Certamente, durante o planejamento da investigação do acidente, a coleta das evidências consideradas pertinentes a partir da análise do cenário do incidente já foi considerada, indicando que evidências devem ser buscadas. Deste modo, neste processo apresentamos algumas orientações de como prover a coleta dos diversos tipos de evidências.

 

No processo de coletar dados é muito útil que seja construída o que denominamos de “linha do tempo”. A linha do tempo é uma descrição cronológica de fatos que antecedem a ocorrência do incidente. É sabido que, na maioria dos eventos que resultam em óbito ou lesões incapacitantes, o foco da linha do tempo é de natureza ocupacional e, portanto, procura-se descrever a cronologia dos fatos na execução da tarefa e da rotina do acidentado, normalmente em um horizonte de 72 horas que antecederam o incidente.

 

No caso de eventos catastróficos, normalmente a abordagem é de segurança de processo e, neste caso, a linha do tempo pode ter uma extensão maior como, por exemplo, desde a última manutenção, última parada, último lote de produção, última modificação do processo de produção, etc.

 

A linha do tempo pode ser descrita nominalmente em uma sequência lógica ou representada em um diagrama de blocos. A construção da linha do tempo ajuda na identificação de fatos, situações e ou condições não visíveis inicialmente ou não diretamente relacionadas com o evento ou ainda externas ao ambiente no qual o evento ocorreu e que possam ter relação causal com o incidente. Estas evidências constituem normalmente, a parte submersa do iceberg. Para vê-las e compreendê-las precisamos estar dispostos a mergulhar no cenário e nos fatos que podem ser conectados à ocorrência investigada.

 

Figura 1– Processo de coleta de dados

 

Coletar dados é um processo interativo que pode se estender em paralelo aos outros processos, parte do ritual da investigação, especialmente durante a etapa de organização e análise dos dados. À medida que a análise vai sendo conduzida, as lacunas de dados ficam aparentes, exigindo que evidências adicionais sejam coletadas. Este ciclo pode se repetir várias vezes antes que a equipe tenha certeza de que as causas foram identificadas e que são justificadas pelas evidências.

 

Coleta de relatos de testemunhas

 

Escutar é uma habilidade fisiológica. Entretanto, escutar é muito diferente de ouvir. Ouvir compreensivamente significa ir além das palavras que o outro está emitindo, significa tentar entrar no seu mundo, incluindo na compreensão de quem ouve, as crenças, valores, dificuldades, habilidades e sentimentos de quem fala. A coleta de relato das testemunhas é um exercício do “ouvir”.

 

É preciso estar atento ao significado do que o outro está dizendo, para que se possa ir além das palavras, de modo que, além de escutar, se possa compreender o verdadeiro significado do que o outro está transmitindo. Para que seja possível ampliar a compreensão sobre os relatos é importante também estar atento às informações não verbais, como postura, tom de voz, olhar, ritmo da comunicação, entonação, movimentos etc.

 



É preciso estar atento ao significado do que o outro está dizendo, para que se possa ir além das palavras, de modo que, além de escutar, se possa compreender o verdadeiro significado do que o outro está transmitindo.

 

O exercício da escuta compreensiva é realizado na medida em que o ouvinte permite que seu cérebro silencie os julgamentos e se prepare para rebater o que está sendo comunicado, buscando justificativas e argumentos para comprovar sua tese. Não é fácil, mas é possível. Significa colocar-se no lugar do outro e percorrer seus caminhos mentais, sua lógica particular, assumir seus valores e crenças pessoais, sem, necessariamente, ter o compromisso de concordar com suas premissas ou suas conclusões.

 

Ao fazer entrevistas, amplie sua escuta para ouvir com compreensão. Ao se comunicar com alguém é preciso lembrar que entre o que é dito e o que é ouvido existe uma grande distância. Quando a mensagem é decodificada pelo receptor, ele insere seus sentimentos, crenças, valores, vivências, expectativas, medos, desejos, conhecimentos e desconhecimentos na fala do emissor.

 

Portanto, é preciso mais do que comunicar; é necessário verificar a compreensão do outro sobre o que se está tentando transmitir e vice-versa. É possível solicitar ao outro que diga o que compreendeu da informação que está sendo transmitida. Este exercício simples pode melhorar significativamente a qualidade da comunicação e, consequentemente da coleta de dados através da entrevista com as testemunhas.

 

Estar atento a si é muito importante, mas é necessário também estar atento ao outro e ao ambiente. Encontrar o momento e o local mais adequado para realizar a entrevista pode ser fator diferencial no sucesso da entrevista com as testemunhas. Estar atento à pessoa com quem se comunica pode reduzir muito as falhas em entrevistas com testemunhas. Uma das falhas mais comuns é o não ajuste da comunicação em relação às características do ouvinte. É preciso estar atento às diferenças entre as pessoas e utilizar um tipo de comunicação adequado para cada tipo de pessoa e, desta forma, aumentar a probabilidade de que o outro compreenda e que você seja compreendido. Isto inclui atenção à adequação do ambiente (local, horário, ruído, outros ouvintes etc.) no qual as entrevistas com as testemunhas são conduzidas.

 

As evidências humanas são frequentemente as mais reveladoras, mas também as mais frágeis e voláteis. Os registros de memória das testemunhas se perdem rapidamente nas primeiras 24 horas após um evento ou acontecimento traumático.

 

Portanto, as testemunhas devem ser selecionadas, localizadas e entrevistadas rapidamente. Utilize a classificação das testemunhas acima apresentada para priorizar as entrevistas, começando pelas testemunhas principais e as oculares que são aquelas que possuem os fatos que podem ajudar na identificação das causas.

 

Um aspecto particular na coleta de dados através de entrevistas é o cuidado que se deve ter na abordagem e na linguagem, pois o entrevistador pode intimidar as testemunhas dependendo de como as mensagens não verbais são interpretadas. Há quem prefira fazer entrevistas coletivas com testemunhas, mas o mais comum são as entrevistas individuais, pois um bom entrevistador consegue identificar os canais de comunicação e a abordagem apropriada para deixar a testemunha à vontade e conduzi-la a colaborar com o seu relato dos fatos.

 

Adicionalmente, ao entrevistar testemunhas, evite fazer questões fechadas que podem ser respondidas apenas com um “Sim” ou um “Não”.

 

Adote as questões abertas como, por exemplo:

 

ü Onde você estava no momento do incidente?

ü O que você estava fazendo naquele instante?

ü O que você viu, ouviu?

ü Quais eram as condições ambientais (tempo, luz, ruído, poeira etc.)?

ü O que o acidentado estava fazendo no exato momento do incidente?

ü Em sua opinião, o que causou o incidente?

ü Como você imagina que incidentes similares a esse possam ser evitados no futuro?

 

Certamente o leitor já deduziu que a condução de uma boa entrevista depende do desenvolvimento de habilidades e certamente de um bom planejamento das mesmas.

 

Coletas de evidências físicas

 

As evidências físicas mais comuns, relacionadas a um incidente, frequentemente incluem equipamentos, ferramentas, instalações, posições de elementos, de pessoas, de controles e de outras partes de itens físicos associados ao incidente. Normalmente, as operações utilizam produtos químicos, combustíveis, lubrificantes e fluidos de acionamento e controle hidráulico. A análise desses elementos pode revelar muito a respeito de características operacionais de equipamentos e vir a constituir um fator causal.

 

A coleta de fluidos para análise requer o uso de técnicas apropriadas, assim como o seu manuseio. Ensaios físicos em materiais podem ser necessários como, por exemplo, para avaliar resistência a impacto ou a outros esforços.

 

Na prática, a coleta de evidências físicas começou nas ações iniciais, tão logo o incidente foi identificado. No entanto, este processo só termina quando a análise estiver concluída e as causas efetivamente identificadas.

 

A fotografia é uma ferramenta valiosa na coleta de evidências físicas. Fotos e vídeos podem identificar, registrar e preservar evidências que não podem ser efetivamente transmitidas verbalmente ou coletadas por outros meios. Ao utilizar fotografias é importante a inclusão de referências padrão para ajudar a identificar dimensões, distâncias e perspectiva. O mais usual é se colocar uma régua com escala ou algum objeto com dimensões conhecidas, como referência. No caso do uso de vídeo é recomendado cobrir a cena geral do incidente bem como as localizações especificas e elementos julgados significativos para a análise dos fatos.

 

As inspeções também são consideradas evidências físicas. Portanto, após o mapeamento inicial e o registro fotográfico, uma inspeção sistemática pode ser necessária e útil incluindo:

 

ü Levantamento dos equipamentos, veículos, estruturas, etc. com objetivo de identificar algum indício de defeito em peças e componentes;

ü Verificação de funcionamento e ausência dos controles operacionais, instrumentos de medição, indicadores operacionais etc.;

ü Verificação de vazamentos de fluidos e gases e coleta de amostras para análise e ensaios.

 

As simulações do incidente também são consideradas evidências e devem ser produzidas sempre que possível. Nestes casos, é viável registrar toda a sequência em vídeo para análise detalhada posterior.

 

Coleta de evidências documentais

 



Os documentos geralmente ajudam a identificar evidências importantes para a identificação das causas da ocorrência.

 

Os documentos geralmente ajudam a identificar evidências importantes para a identificação das causas da ocorrência. Portanto, uma verificação detalhada das políticas, normas e especificações pode indicar as atitudes e ações das pessoas envolvidas no incidente e revelar evidências que geralmente não são apresentadas em testemunhos verbais.

 

De maneira geral as evidências documentais podem ser agrupadas da seguinte maneira:

 

ü Documentos de controle gerencial que definem como, quando, onde e por quem as atividades de trabalho devem ser executadas;

ü Documentos de acompanhamento operacional que descrevem as ações tomadas durante a rotina de trabalho em complemento aos documentos de controle gerencial;

ü Relatórios que identificam o conteúdo e os resultados de estudos, análises, auditorias, inspeções, avaliações e outras investigações relacionadas às atividades de trabalho e

ü Registros que indicam o desempenho passado e presente, o status das atividades de trabalho, bem como de pessoas, equipamentos e materiais envolvidos.

 

A verificação de fatores organizacionais e seu sistema de gestão são mandatórios na investigação dos incidentes, assim como a verificação de requisitos legais aplicáveis.

 

Exemplos típicos de documentos que devem ser verificados incluem:

 

ü Relatórios e registros de produção e de manutenção;

ü Relatórios de turnos;

ü Relatórios de inspeções de manutenção e de segurança;

ü Procedimentos operacionais e instruções de trabalho;

ü Análise de tarefas e avaliação de risco;

ü Permissões de trabalho;

ü Layout;

ü Descrição e especificação de equipamentos e manuais de operação e de manutenção;

ü Relatórios de treinamento;

ü Relatórios de investigações anteriores de incidentes;

ü Banco de dados eletrônicos;

ü Registros de sistemas de controle e supervisão eletrônica de equipamentos e instalações;

ü Atas de reuniões;

ü Registros eletrônicos de equipamentos etc.

 

Preservar e controlar os dados

 

A preservação e o controle das evidências são essenciais para evitar a perda ou alteração, para conferir credibilidade à investigação e para poderem ser facilmente encontradas quando necessário. Deste modo, é recomendado que se tenha procedimentos definindo a forma de preservação e controle dos mesmos.

 

Antes de remover qualquer evidência da cena da ocorrência, é necessário adotar ações que preservem a sua integridade tais como:

 

ü Registrar o local e orientação exatos da evidência na cena utilizando medidas, anotações, esquemas, fotografias, vídeos ou mesmo marcas indicativas no local como, por exemplo, utilizando tinta spray;

ü Providenciar local de armazenamento seguro para as evidências;

ü Embalar cuidadosamente e etiquetar com clareza para identificar a evidência e sua procedência;

ü Equipamentos e peças que estejam com defeito, avariados, montados inadequadamente e removidos para avaliação técnica devem ser registrados e terem seu posicionamento identificados com mapas, croqui ou imagem mostrando a sua posição na cena da ocorrência;

ü Itens que tenham sido quebrados ou danificados devem ser embalados cuidadosamente para preservar os detalhes da sua superfície;

ü Peças frágeis devem ser acondicionadas adequadamente para preservar a sua integridade;

ü O cuidado ao trafegar no local de ocorrência do incidente é essencial, pois além de evitar descaracterizar a cena do incidente pode ser perigoso pela possível presença de material nocivo ou mesmo estruturas enfraquecidas decorrente da ocorrência.

 

É essencial prover um registro sistemático das imagens em foto e vídeo numa folha de controle descrevendo o local, data e hora em que foram produzidas. Não é recomendado utilizar anexos fotográficos que gravem digitalmente a data e hora na própria imagem, pois podem tornar ilegível parte da cena do incidente ou detalhes importantes. Da mesma forma, o uso das datas impressas no verso de fotos processadas em laboratórios fotográficos não deve ser considerado como o registro de fotos, pois as datas ali impressas são normalmente as datas de processamento e não a data na qual a imagem foi obtida.

 



Os registros eletrônicos devem ser mantidos organizados num local apropriado e de acesso restrito.

 

Os itens, peças, materiais removidos da cena do incidente e coletados como evidências, devem ser registrados numa folha de controle indicando também data, hora, quem coletou e onde estão guardados.

 

Os documentos e registros coletados devem ser registrados em uma folha de controle indicando o tipo, a origem, o seu propósito e a data da versão do documento, pelo menos.

 

O acesso às evidências deve ser controlado. Elas devem ser disponibilizadas apenas para quem precisa examinar ou utilizar para outro fim durante o ritual da investigação. O acesso ao local físico onde as evidências estão armazenadas deve ser também controlado e restrito.

 

Os registros eletrônicos devem ser mantidos organizados num local apropriado e de acesso restrito. As declarações das testemunhas e informações médicas devem ser tratadas com confidencialidade e armazenadas de modo a impedir acesso público.

 

Após o término da investigação, é recomendável que todos os arquivos eletrônicos, incluindo o relatório final sejam copiados para um CD ou outro formato de armazenamento adequado e todos os dados deletados do computador onde a equipe de investigação estava trabalhando.

 

Em se tratando de um ritual e considerando que as ações do aprendizado para com o incidente devem ser registradas, observe os documentos e registros pertinentes a esta etapa, indicados na figura 1

 

No próximo artigo abordaremos a etapa 6 do ritual de aprendizado para com o incidente, que é organização e análise dos dados para a identificação das causas do incidente investigado.

 

 

Autor: Reginaldo Pedreira Lapa
Engenheiro de Minas e de Segurança do Trabalho

 

Fonte: Lapa, Reginaldo Pedreira. Investigação e Análise de Incidentes, Editora Edicon, São Paulo, 2011

 




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