FATOR DE QUEDA NO TRABALHO EM ALTURA - O QUE É, COMO
CALCULAR E POR QUE É ESSENCIAL PARA A NR-35
O
trabalho em altura é uma das atividades com maior índice de acidentes graves e
fatais no Brasil. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, quedas de
altura figuram entre as principais causas de morte no ambiente de trabalho.
Dentro desse contexto, compreender o fator de queda é fundamental para qualquer
profissional de segurança do trabalho que atua com equipes expostas a esse
risco.
Neste
artigo, você vai entender o que é o fator de queda, como ele é calculado, o que
diz a NR-35 e a ABNT NBR 16325 sobre o tema, e como aplicar esse
conhecimento na escolha e posicionamento correto dos sistemas de proteção
contra quedas.
O
Que É Fator de Queda?
O
fator de queda é um índice numérico que representa a severidade de uma queda em
um sistema de proteção individual. Ele expressa a relação entre a distância
percorrida em queda livre e o comprimento do talabarte — o elemento de conexão
entre o trabalhador e o ponto de ancoragem.
A
própria NR-35 define o conceito em seu glossário:
'Fator de queda: Razão
entre a distância que o trabalhador percorreria na queda e o comprimento do
equipamento que irá detê-lo.'
Em
termos práticos, a fórmula é:
F
=
distância de queda livre ÷ comprimento do talabarte
O
resultado varia entre 0 e 2, e quanto maior o valor, maior a força de
impacto que o corpo do trabalhador e o sistema de proteção irão absorver no
momento em que a queda for retida.
Como
Funciona o Fator de Queda na Prática: Fator 0, 1 e 2
Para
entender o fator de queda na prática, é preciso analisar os três cenários
possíveis. A imagem abaixo ilustra cada um deles:
Fator
de Queda 0 — Risco Baixo
Ocorre
quando o ponto de ancoragem está acima da cabeça do trabalhador, sem folga no
talabarte. Nesse cenário, a distância de queda livre é mínima ou praticamente
nula, pois o sistema retém o trabalhador quase imediatamente.
Distância
de queda livre:
zero ou próxima de zero
Força
de choque no corpo:
muito baixa (inferior a 1 kN)
Situação
ideal para trabalho em altura seguro
Fator
de Queda 1 —
Risco Moderado
Acontece
quando o ponto de ancoragem está no mesmo nível do cinto de segurança do
trabalhador. Nesse caso, antes que o talabarte fique tenso e retenha a queda, o
trabalhador percorre uma distância igual ao comprimento do talabarte (L).
Distância
de queda livre:
igual a L
Força
de choque estimada:
aproximadamente 6 kN
Próxima
do limite máximo estabelecido pelas normas
Fator
de Queda 2 —
Risco Alto (Pior Cenário)
É
o cenário mais perigoso. Ocorre quando o ponto de ancoragem está abaixo do
nível do cinto do trabalhador. A queda livre percorre o dobro do comprimento do
talabarte (2L) antes de ser retida.
Distância
de queda livre: igual a 2 × L
Força
de choque:
pode superar 6 kN, ultrapassando o limite de segurança
Situação
que deve ser evitada a todo custo no planejamento do trabalho em altura
O
Que Diz a NR-35 Sobre o Fator de Queda?
A
NR-35 — Trabalho em Altura trata expressamente do fator de queda em mais
de um ponto do seu texto. No glossário da norma, o conceito é definido com
precisão, conforme citado acima.
Além
da definição no glossário, a norma faz referência direta ao tema em dois pontos
importantes:
No
item 35.5.5.1, alínea 'e', ao tratar dos requisitos da Análise de
Risco (AR), a norma determina que devem ser considerados os princípios da
redução do impacto e dos fatores de queda na seleção e utilização dos sistemas
de proteção coletiva e individual.
No
item 35.6.11, alínea 'c', a norma é ainda mais direta. Ao listar os aspectos
que a AR deve considerar para o Sistema de Proteção Individual Contra Quedas
(SPIQ), ela inclui obrigatoriamente:
a) que o trabalhador deve permanecer conectado
ao sistema durante todo o período de exposição ao risco de queda
b) a distância de queda livre
c) o fator de queda
d) a utilização de um elemento de ligação que garanta que um impacto de no
máximo 6 kN seja transmitido ao trabalhador quando da retenção de uma queda
e) a zona livre de queda
f) a compatibilidade entre os elementos do SPIQ
Ou
seja, o fator de queda não é apenas um conceito técnico — ele é um item
obrigatório de análise em toda Análise de Risco que envolva trabalho em altura
com uso de SPIQ. Ignorá-lo é descumprir a norma.
A
NR-35 também determina no item 35.6.11.1 que o talabarte e o
dispositivo trava-quedas devem ser posicionados de modo a restringir a
distância de queda livre e garantir que o trabalhador não colida com estrutura
inferior — reforçando na prática a necessidade de reduzir ao máximo o fator de
queda no planejamento da atividade.
ABNT
NBR 16325 e o Limite de Força de Choque
A
ABNT NBR 16325 complementa a NR-35 ao estabelecer os requisitos
técnicos para os componentes dos Sistemas de Proteção Individual Contra Quedas.
Um dos pontos centrais da norma é o limite máximo de força de choque que pode
ser transmitida ao corpo do trabalhador no momento da retenção da queda, valor
também reforçado pelo item 35.6.7 da NR-35:
Máximo
de 6 kN no corpo do trabalhador
Esse
limite é o que justifica a obrigatoriedade do absorvedor de energia nos
talabartes. Quando o fator de queda é alto — especialmente próximo de 2 — a
força gerada no momento do impacto pode ultrapassar esse valor, colocando a
integridade física do trabalhador em risco mesmo que ele não tenha atingido o
solo.
Como
Reduzir o Fator de Queda no Trabalho em Altura
Reduzir
o fator de queda é uma responsabilidade técnica e gerencial que começa no
planejamento da atividade. Veja as principais medidas:
1.
Posicione a ancoragem sempre acima da cabeça do trabalhador
Sempre
que possível, o ponto de ancoragem deve estar no nível dos ombros ou acima da
cabeça. Isso garante que, em caso de queda, o fator se aproxime de 0.
2.
Utilize talabarte integrado com absorvedor de energia
O
absorvedor de energia é o componente que dissipa a força de choque no momento
da retenção. Conforme o item 35.6.9.1.1 da NR-35, quando o elemento de
ligação utilizado para retenção de quedas for um talabarte, ele deve ser
integrado com absorvedor de energia — sem exceções.
3.
Evite folgas desnecessárias no talabarte
Quanto
maior a folga entre o trabalhador e o ponto de ancoragem, maior será a
distância de queda livre e, consequentemente, maior o fator de queda. O item
35.6.11.1 da NR-35 é claro: o talabarte deve ser posicionado de modo a
restringir a distância de queda livre.
4.
Realize a Análise de Risco antes de iniciar a atividade
A
AR deve mapear o posicionamento dos pontos de ancoragem disponíveis, prever o
fator de queda resultante em cada situação e orientar a escolha do equipamento
mais adequado — conforme exigido pelo item 35.6.11 da NR-35.
5.
Capacite os trabalhadores no curso da NR-35
Trabalhadores
capacitados reconhecem os riscos associados ao posicionamento incorreto da
ancoragem e sabem como configurar o Sistema de Proteção Individual Contra
Quedas de forma correta. A NR-35 exige treinamento inicial mínimo de 8 horas e
reciclagem a cada 2 anos.
Fator
de Queda e a Escolha do EPI Correto
A
escolha do Equipamento de Proteção Individual (EPI) para trabalho em
altura deve levar em conta o fator de queda esperado para cada atividade. Os
principais componentes do Sistema de Proteção Individual Contra Quedas
(SPIQ) são:
Cinturão
de segurança tipo paraquedista — obrigatório no SPIQ de retenção de queda e de
acesso por cordas, conforme item 35.6.9 da NR-35
Talabarte
integrado com absorvedor de energia — obrigatório quando o elemento de ligação
utilizado para retenção de quedas for um talabarte, conforme item 35.6.9.1.1
da NR-35
Trava-queda
—
recomendado para movimentação vertical, pois mantém o ponto de ancoragem sempre
próximo ao trabalhador, reduzindo a distância de queda livre e,
consequentemente, o fator de queda
Linha
de vida —
sistema de ancoragem horizontal ou vertical que permite mobilidade com
segurança, devendo ser projetado por profissional legalmente habilitado
conforme item 35.6.3.1 da NR-35
Conclusão:
O Fator de Queda Salva Vidas
Compreender
o fator de queda não é apenas um requisito técnico para conformidade com a
NR-35 — é um conhecimento que, quando aplicado corretamente, salva vidas. A
diferença entre um fator de queda 0 e um fator 2 pode ser a diferença entre um
susto e uma fatalidade.
Para
o profissional de segurança do trabalho, dominar esse conceito é fundamental
para orientar corretamente equipes, dimensionar sistemas de proteção e garantir
que o trabalho em altura seja realizado com o máximo de segurança possível.
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