AVALIANDO
CORRETAMENTE O CICLO DE EXPOSIÇÃO EM ANÁLISES DE CALOR
Nas avaliações de exposição ao calor no ambiente de
trabalho é fundamental compreender que a correta caracterização do ciclo de
exposição é um dos pilares para uma análise precisa e representativa da
realidade. Entre os conceitos essenciais, destaca-se a necessidade de se
analisar os 60 minutos mais críticos, considerando as diferentes situações
térmicas envolvidas nas tarefas realizadas pelo trabalhador.
Um exemplo comum ocorre em áreas industriais onde
múltiplas situações térmicas podem coexistir em um mesmo posto de trabalho.
Suponhamos
uma rotina operacional composta por três etapas:
1.
Abastecimento de forno — realizado próximo à fonte geradora
de calor, com alta carga térmica, por 20 minutos;
2.
Atividade auxiliar — executada a cerca de 10 metros do
forno, com menor intensidade térmica, durante 10 minutos;
3.
Monitoramento em sala de controle — com duração de 30
minutos, sendo possível inclusive que o ambiente seja refrigerado.
Esse ciclo total de 60 minutos reflete a verdadeira
dinâmica da exposição térmica do trabalhador. No entanto, um erro bastante
recorrente entre avaliadores é realizar a quantificação do IBUTG (Índice de
Bulbo Úmido Termômetro de Globo) apenas na situação térmica de maior carga
térmica (por exemplo, o abastecimento do forno), mantendo a medição por 60
minutos contínuos nessa situação.
Essa abordagem desconsidera a variabilidade térmica ao
longo do turno e acaba eventualmente superestimando a exposição térmica. O
objetivo da avaliação não é avaliar apenas a situação térmica com a maior
temperatura absoluta, mas sim determinar qual ciclo de 60 minutos apresenta o
maior potencial de risco térmico, considerando a intensidade do calor, os
tempos proporcionais em cada situação térmica e a respectiva carga metabólica
de cada tarefa.
CICLO
DE TRABALHO REAL
Em
alguns casos, torna-se necessário avaliar diferentes ciclos de 60 minutos
dentro da jornada para identificar qual intervalo é realmente o mais crítico. A
partir daí, é possível estabelecer a taxa metabólica média ponderada, comparar
os dados com os limites de exposição ocupacional (LEO), níveis de ação, região
de incerteza e valor teto, conforme preconizado na NHO 06 da Fundacentro, e
compatibilizar os resultados com os critérios estabelecidos no Anexo 3 da NR 9
(Exposição Ocupacional ao Calor) e no Anexo 3 da NR 15 (Atividades e Operações
Insalubres – Calor).
Portanto, focar exclusivamente na situação térmica
mais extrema, ignorando a alternância de atividades, compromete a fidelidade da
avaliação e pode levar a decisões inadequadas sobre medidas de controle, bem
como à caracterização incorreta do adicional de insalubridade e das condições
especiais de trabalho. A avaliação deve ser fiel ao ciclo de trabalho real e
baseada em critérios técnicos sólidos, refletindo a complexidade e a dinâmica
do ambiente térmico ocupacional.
NOTA
DE PESAR
Uma
das coisas que eu mais aprendi, em quase 20 anos de atuação na área de
SST, é que as coisas simples, quando bem feitas surtem muitos resultados
práticos.
Essa era uma das inúmeras virtudes do prevencionista
Cosmo Palasio, que nos deixou recentemente. Uma pessoa que compartilhava o seu
conhecimento de forma simples, objetiva e com uma didática ímpar.
Meus sentimentos a toda família, amigos e à nossa
comunidade de SST, que perde um dos melhores profissionais que já tivemos em
nossa área.
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