ACIDENTE
SÃO REALMENTE ACASO?
Abro os olhos com dificuldade e vejo uma gota
silenciosa caindo da bolsa de soro. Sinto um tubo na minha boca e, sem forças,
volto a dormir.
Pi… Pi… Pi…
Acordo com o barulho clássico de um hospital. Isso
significa que meu coração ainda está batendo. Tento me mover, mas não consigo.
Só vejo o teto branco com finas rachaduras ao redor das placas de gesso.
Resisto por alguns minutos, mas o sono me vence novamente.
Acordo com a enfermeira trocando a bolsa de soro. Ela
me olha com um sorriso e diz: “Não se preocupe, você está melhorando e sua
família está torcendo e orando por sua recuperação”.
Penso em minha família e na Diana, que deve estar
desesperada. Tento perguntar à enfermeira o que aconteceu e se a Diana não pode
me visitar, mas não consigo falar.
Novo dia ou, talvez, o mesmo. Não tenho mais noção do
tempo. Sinto uma coceira no nariz, mas ainda não tenho forças para levantar o
braço. Fico neste desespero até dormir novamente. Tento lembrar o que
aconteceu, mas só me lembro de ter saído para o trabalho. Será que sofri um
acidente de carro?
Cara leitora (você também é convidado, caro leitor),
infelizmente ainda vai demorar para o Sr. Nonato se lembrar com detalhes do seu
acidente. Mas vou adiantar o que aconteceu: era segunda-feira e ele chegou à
empresa com uma forte dor de cabeça. Foi direto para o refeitório, tomou um
café puro, comeu um pão com manteiga e acompanhou as notícias pela TV. Chegou
esgotado, como se tivessem desligado a chave geral de seu corpo. Tinha uma
sensação desesperadora e o trabalho não ajudava, com tantas demissões, todo mundo
estava no limite. Pensou em pedir demissão, mas também se perguntava o que
faria se saísse. Despertou dos seus pensamentos e se encontrou com Duarte, o
chefe da manutenção, para buscar a ordem de serviço com as tarefas do dia.
Teria que fazer a manutenção dos motores localizados em uma plataforma no
telhado da empresa.
Era o tipo de trabalho que o incomodava. Teria que
usar o cinto de segurança e ele o detestava, era muito desconfortável e quente,
mas sabia que, mesmo sendo uma tarefa rápida, o chato Técnico de Segurança não
permitiria o serviço sem o cinto. Passou no SESMT e foi acompanhado pelo
estagiário para preenchimento da Permissão de Trabalho. Serviço liberado,
colocou o cinto e subiu pela escada de marinheiro que daria o acesso a
plataforma, engatou na linha de vida e começou a subir. A empresa era imensa e
o pé direito era em torno de doze metros. Saiu da escada e pisou na plataforma,
deu dois passos e lembrou que precisava engatar a porcaria do talabarte na
linha de vida. Ia ser a penitência do dia, mas, enfim, tinha que seguir o
procedimento.
Iniciou a abertura do motor e percebeu que não tinha a
chave na bitola adequada. Tirou todas as ferramentas do cinto, mas não
encontrou nenhuma que servisse. Resolveu usar a ponta do alicate para afrouxar o
parafuso e, depois de muito esforço, conseguiu, mas sabia que não conseguiria
fixá-lo de volta sem a chave adequada. Decidiu descer para pegar a ferramenta.
Quando deu o primeiro passo, desequilibrou-se e começou a cair. O cinto estava
preso ao cabo de aço na altura dos seus pés, então ele caiu com certa
velocidade, batendo a cabeça na lateral do prédio e ficando pendurado. O
impacto foi forte e ele ficou desacordado por vários minutos até ser resgatado.
Esse foi o motivo, minha cara leitora, dele estar prostrado
na cama do hospital. Mas vamos voltar ao leito do Nonato.
Estava em outro quarto, acordei com dor de cabeça,
ainda com o tubo na boca, com a cabeça coçando e sem forças para levantar os
braços, preso às limitações de um corpo doente. Tentei gritar e sacudir, mas
sem forças, só conseguia chorar. Neste momento, a porta abriu e eu escutei a
voz da Diana e de um homem. Envergonhado, fingi estar dormindo e escutei quando
ela perguntou: “Ele não vai melhorar?”.
O homem respondeu: “Sim, ele já está bem melhor. Ainda
ficará fraco por alguns dias, mas não corre mais riscos”. Quando perguntou
sobre os movimentos, o médico respondeu: “Infelizmente, a queda prejudicou a
vértebra cervical e ele não terá mais movimentos”. Tentei batucar os braços,
gritar, mas não consegui contradizer o médico. O máximo que consegui, foi fazer
com que as lágrimas corressem pelo meu rosto e caíssem no interior do meu
ouvido.
Após escrever esse texto, comecei a pensar nos erros
nos procedimentos que levaram ao acidente. Pense um pouco na situação: a
permissão de trabalho foi aberta por um estagiário, talvez não tenha sido bem
avaliada a necessidade de realizar a atividade com acompanhamento do SESMT ou,
pelo menos, em dupla. O uso de cinto de retenção teria sido uma escolha mais
apropriada, pois impediria que o trabalhador chegasse à beira da edificação e
evitaria uma possível queda. Se fosse possível, um guarda-corpo poderia ser
instalado. Em outras palavras, apesar da palavra “acidente” nos remeter a um
acontecimento casual, fortuito e inesperado, ao estudar as ocorrências,
percebemos que raramente elas são realmente acidentais.
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