GOVERNO
QUER SABER ORIGEM DO VÍRUS QUE AMEAÇA A VOLTA DAS ARARINHAS À NATUREZA
Até agora 31 aves teriam testado positivo, mas órgão ambiental e criadouro discordam sobre o método usado nas avaliações
A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) foi extinta da
natureza no início dos anos 2000 e vinha sendo reintroduzida na Caatinga
baiana, seu único habitat natural. Foto: ACTP / Divulgação
O circovírus que ameaça desde abril a
reintrodução da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) na Caatinga baiana
já teria infectado 31 aves – 11 já em vida livre e outras 20 num criadouro
conservacionista no município de Curaçá, de onde os emplumados aguardam
liberação na natureza.
Em nota enviada a ((o)) eco, o ICMBio – coordenador da
reintrodução da espécie – disse não estar confirmado se o vírus teve origem
fora do Brasil ou entre animais que já estavam no país. “Esta hipótese está sob
investigação de nossa equipe técnica”, ressaltou.
O órgão não descarta que o patógeno tenha chegado com
aves vindas em janeiro do criadouro alemão ACTP (sigla em Inglês da Associação
para a Conservação de Papagaios Ameaçados). À época, um dos 41 animais testou
inicialmente positivo, mas ele seguiu viagem após exames posteriores o
isentarem da contaminação.
Segundo Ugo Vercillo, diretor da ONG Blue Sky Caatinga
e do Criadouro Ararinha-azul, as aves passaram por isolamento e exames no país
europeu e na chegada ao Brasil, e os resultados – todos teriam sido negativos
para qualquer enfermidade – foram conhecidos pelas autoridades brasileiras.
“Depois
de investir milhões na construção e implementação do criadouro, qual seria o
ganho para o projeto em trazer uma ave com resultado positivo para um vírus que
poderia comprometer a soltura de 2025 e todo o plantel do criadouro? ”,
indagou o biólogo.
Conforme Vercillo, o circovírus é registrado há cerca
de 30 anos em criadouros, feiras, centros de reabilitação, pet shops e casas em
vários estados brasileiros. Ele também citou solturas oficiais e não oficiais
de aves, fugas de cativeiros e intenso comércio ilegal, inclusive em áreas
próximas a Curaçá.
“É
pouco crível que nenhuma ave nativa ou exótica infectada tenha alcançado o
ambiente natural e que o patógeno tenha permanecido restrito apenas ao
cativeiro”, destacou.
Ararinhas soltas em junho de 2022 num refúgio de vida
silvestre, em Curaçá, na Bahia. Foto: Cromwell Purchase / ACTP-Brasil
Ararinhas soltas em junho de
2022 num refúgio de vida silvestre, em Curaçá, na Bahia foto Cromwell
Purchase / ACTP - Brasil
Distintos
métodos de testagem
Outra discórdia envolve como foram feitos os testes
para indicar a presença do circovírus.
Sem tratamento conhecido, a doença provoca perda de penas, deformação do bico,
diarreia e pode ser fatal.
Como Vercillo alegou ao Conexão Planeta, os laudos
sobre infecções do ICMBio foram imprecisos e precipitados porque usaram
técnicas diferentes: o “PCR em tempo
real” e o “PCR convencional”. O
primeiro indicou positivo para 11 aves reintroduzidas, enquanto o segundo
apontou infecção em três delas.
“O
PCR em tempo real é muito sensível e sujeito a um alto grau de contaminação,
inclusive ambiental”, disse.
“Os
exames devem seguir o PCR convencional, recomendado
em artigos científicos e pela IUCN (União Internacional
para a Conservação da Natureza), e usado nas aves que vieram para o Brasil”.
O impasse deverá ser debatido nos próximos dias numa
reunião entre a Blue Sky Caatinga e o ICMBio. Enquanto isso, o órgão federal
quer evitar que mais animais no criadouro sejam infectados – onde atualmente há
103 ararinhas-azuis e duas araras-maracanãs (Primolius maracana).
“No
momento, nossa principal preocupação é a separação segura entre animais
positivos e negativos, para garantir que as medidas de biossegurança sejam
absorvidas na rotina de manejo dessas aves”, destacou.
Uma ararinha voando livre pela Caatinga. Enfim, livre.
Foto: Tim Flach / ACTP
Uma ararinha
voando livre pela Caatinga.
Enfim, livre.
Foto: Tim Flach / ACTP
Supostas
condições precárias
Um outro comunicado repassado pelo ICMBio à
reportagem descreve um auto de infração que gerou R$ 1,8 milhão em
multas a Vercillo e ao Criadouro Ararinha-azul. Os motivos seriam suas
condições sanitárias que aumentariam os riscos de contaminação dos animais.
Uma analista ambiental do ICMBio descreveu a situação à Folha de S. Paulo: “os
recintos não eram limpos diariamente, havia fezes antigas no local junto com
restos de comida. Os funcionários circulavam de chinelo de dedo, bermuda e
camiseta, não usavam equipamentos de proteção”.
Vercillo confirmou a ((o)) eco ter recebido ontem (25)
um auto de infração por suposto descumprimento de medidas de biossegurança, mas
sem detalhes ou explicações. “Solicitamos acesso ao processo para que possamos
recorrer e corrigir algo que não esteja adequado”, contou.
Ele também afirmou que as condições do criadouro vêm
sendo aprimoradas para garantir o bem-estar das aves e evitar a contaminação
entre ambientes. “Sempre houve um cuidado exímio, tanto que o índice de óbitos
é baixíssimo, não houve nenhum registro de doença e tivemos sucesso reprodutivo
com 14 filhotes”.
*Com informações do Conexão Planeta e da Folha
de S. Paulo.
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