FATORES
DE RISCO PSICOSSOCIAIS: O INIMIGO “INVISÍVEL” NO TRABALHO
Com a nova redação da NR 1, passei a estudar os já
famosos fatores de risco psicossociais e percebi que já conhecia vários deles,
pois já havia convívio com esses problemas no meu ambiente de trabalho. Na
verdade, nas minhas atividades profissionais, posso citar dois exemplos que
ilustram bem como esses fatores podem afetar a vida de qualquer pessoa.
O primeiro exemplo ocorreu quando eu trabalhei em um
órgão público do Estado, no final do mandato de um governador. Naquela época,
muitas das atividades já haviam sido concluídas e não havia mais projetos em
andamento. Lembro-me de perguntar ao meu chefe o que eu deveria fazer e ela
respondeu: “Mário, você pode carimbar os processos”.
Carimbar os processos consistia basicamente em ficar
sozinho em uma sala, batendo carimbos e escrevendo manualmente números
sequenciais nas páginas. Era um trabalho mecânico, repetitivo e sem qualquer
desafio intelectual. Apesar de ser relativamente bem remunerado e não ter uma
pressão por produção, comecei a me sentir completamente inútil nessa função. A
sensação de que eu não estava contribuindo para nada relevante se tornou
insuportável, e após pouco mais de um mês, pedi demissão.
Hoje, com uma visão mais clara sobre os fatores de
risco psicossociais, percebi que aquela situação estava diretamente relacionada
à falta de significado no trabalho. Esse é um dos fatores que podem gerar
impactos negativos na saúde mental dos trabalhadores, pois, quando não vemos
intencionalmente no que fazemos, nossa motivação despenca.
REALIDADE
OPOSTA
O
segundo exemplo que vivi foi em uma grande empresa em que a realidade era
oposta ao órgão público: ali, a pressão era constante. Eu era responsável por
diversas tarefas simultaneamente, participando de processos de verificação,
projetos relacionados à Segurança do Trabalho e outras atividades.
Em um desses momentos de alta demanda, durante a
revisão de um projeto de proteção para um esmeril, percebi que o engenheiro
mecânico responsável pela execução da peça havia sido feito algo completamente
diferente do que eu havia especificado. Aquilo poderia comprometer a segurança
da operação. O acúmulo de tensão, o cansaço e a pressão fizeram com que eu
reagisse de uma forma que nunca imaginei: perdi completamente a calma. Em um
acesso de luxo, dei um berro para o engenheiro, algo totalmente incomum para a
minha personalidade.
Poucos minutos depois, a ficha caiu. Pedi desculpas a
ele, fui direto ao meu chefe e disse a ele: "Chefe, peço demissão. Acabei
de fazer algo que não é da minha natureza".
E assim, sem pensar duas vezes, saí da empresa.
ADOECIMENTOS
O
que quero destacar com essas duas situações é que eu tive a sorte de poder sair
desses empregos. Na época, achei que era o momento de fazer uma pausa, e como
eu tinha uma certa estabilidade financeira, isso me permitiu tomar essa
decisão. Mas o que acontece com aqueles que não têm essa opção? O que ocorre
com milhares de trabalhadores que enfrentam diariamente altos níveis de
estresse, sobrecarga, falta de reconhecimento e desmotivação, mas que não podem
simplesmente conseguir uma pausa, ter a esperança de mudanças nas atividades ou
mesmo pedir demissão?
Infelizmente, para muitas dessas pessoas, o destino é
o adoecimento. Os fatores de risco psicossociais, quando ignorados, podem levar
a transtornos psicológicos graves, como síndrome de burnout, depressão e
ansiedade. Além disso, há efeitos físicos associados, como dores musculares,
insônia e fadiga crônica. A saúde mental dos trabalhadores precisa ser levada a
sério, pois seu impacto vai muito além do ambiente de trabalho, no que diz
respeito à vida pessoal, aos relacionamentos e à qualidade de vida como um
todo.
DESAFIOS
A
NR 1 trouxe avanço importante ao dar destaque a esses riscos e ao exigido que
sejam considerados na gestão de Segurança e Saúde no Trabalho. No entanto, a
aplicação prática ainda enfrenta desafios, pois muitos desses riscos são
subjetivos e difíceis de mensurar. Na maioria das empresas, elas são tratadas
como invisíveis, o que permite que continuem causando danos silenciosos à saúde
dos trabalhadores.
É necessário, portanto, ampliar esse debate,
conscientizar gestores e colaboradores sobre a importância do bem-estar mental
no trabalho e agir para que a prevenção dos fatores de risco psicossociais seja
uma prioridade.
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